Teixeira de Pascoaes, "Antiga Dor"



Teixeira de Pascoaes

O subtil, o reflexo, o vago, o indefinido,
Tudo o que o nosso olhar só vê por um momento
Tudo o que fica na Distância diluído,
Como num coração a voz do sentimento.
Tudo o que vive no lugar onde termina
Um amor, uma luz, uma canção, um grito,
A última onda duma fonte cristalina,
A última nebulosa etérea do Infinito...
Esse país aonde tudo principia
A ser névoa, a ser sombra ou vaga claridade,
Onde a noite se muda em clara luz do dia,
Onde o amor começa a ser saudade;
O longínquo lugar aonde o que é real
Principia a ser sonho, esperança, ilusão;
O lugar onde nasce a aurora do Ideal
E aonde a luz começa a ser escuridão...
A última fronteira, o último horizonte,
Onde a Essência aparece e a Forma terminou...
O sítio onde se muda a natureza inteira
Nessa infinita Luz que a mim me deslumbrou!...
O indefinido, a sombra, a nuvem, o apagado,
O limite da luz, o termo dum amor,
Tornou o meu olhar saudoso e magoado,
Na minha vida foi minha primeira dor...
Mas hoje, que o segredo oculto da Existência,
Num momento de luz, o soube desvendar,
Depois que pude ver das cousas a essência
E a sua eterna luz chegou ao meu olhar,
Meu infinito amor é a Alma universal,
Essa nuvem primeira, essa sombra d'outrora...
O Bem que tenho hoje é o meu antigo Mal,
A minha antiga noite é hoje a minha aurora!...

(de Sempre, 1898/1902)


Florbela Espanca, "Tortura"



Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento!
– E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento! ...

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
– E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento ...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!




Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), "Tabacaria"



Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Ao longe por mim oiço chamando a voz das coisas que eu sei amar. E de novo caminho para o mar.

Sophia de Mello Breyner Anderson

Sophia de Mello Breyner, "Cidade"

Night-City
Night-City by Stephen F. Soitos
Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.


Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo Mal de te amar neste lugar de imperfeição Onde tudo nos quebra e emudece Onde tudo nos mente e nos separa.

Sophia de Mello Breyner Anderson

Marc Chagall, "Blue Lovers"
 






Fernando Pessoa, "Foi Um Momento"


Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não?
Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido,
Mas tão de leve!...
Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há uma coisa
Incompreendida...
Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?
Como se tu,
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses
Que tinha ser.
Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.

A LUVA DE RICARDO

flor

Meu avô era poeta
Que enquanto escrevia, despia
A alma de desventuras…
Ao coldre tinha uma arma
Mas consta que
Não tinha armadura…
Por vezes sonhava sonhos
De gente simples, feliz…
Mas por dura cerviz
Foi proibido.
E em póstuma revolução
(E derradeira!)
Fez -se morrer rente ao chão
Em rasa simplicidade!
Meu avô… meu avô…
Era um poeta…
Que enquanto escrevia, despia
A alma de desventuras…
…E a herança de sua neta
Foi esta dor de poeta
Foi esta amarga doçura
E ainda a ausência que trago
Da sua ignota ternura.

Jorge Luis Borges, "Poema dos Dons"


Graças quero dar ao Divino
Labirinto dos efeitos e das causas
Pela diversidade das criaturas
Que formam este singular universo,
Pela razão, que não cessará de sonhar
Com um plano para o labirinto,
Pelo rosto de Helena e a perseverança de Ulisses,
Pelo amor que nos deixa ver os outros
Tal como os vê a divindade,

Séneca, in 'Cartas a Lucílio'

       
Procede deste modo, caro Lucílio: reclama o direito de dispores de ti, concentra e aproveita todo o tempo que até agora te era roubado, te era subtraído, que te fugira das mãos. Convence-te de que as coisas são tal como as descrevo: uma parte do tempo é-nos tomada, outra parte vai-se sem darmos por isso, outra deixamo-la escapar. Mas o pior de tudo é o tempo desperdiçado por negligência. Se bem reparares, durante grande parte da vida agimos mal, durante a maior parte não agimos nada, durante toda a vida agimos inutilmente.
Podes indicar-me alguém que dê o justo valor ao tempo aproveite bem o seu dia e pense que diariamente morre um pouco? É um erro imaginar que a morte está à nossa frente: grande parte dela já pertence ao passado, toda a nossa vida pretérita é já do domínio da morte!
Procede, portanto, caro Lucílio, conforme dizes: preenche todas as tuas horas! Se tomares nas mãos o dia de hoje conseguirás depender menos do dia de amanhã. De adiamento em adiamento, a vida vai-se passando.

Jesus, Joy of Man’s Desiring – J. S. Bach, by Celtic Woman



Jesus, joy of man's desiring
Holy wisdom, love most bright
Drawn by Thee, our souls aspiring
Soar to uncreated light
Word of God, our flesh that fashioned
With the fire of life impassioned
Striving still to truth unknown
Soaring, dying round Thy throne

Carla Furtado Ribeiro, Tema Original / "Cassiopeia" de Orlando de Carvalho


Quando os cutelos de sombra
abordarem a planície
se te vierem dizer que eu te disse
que aquela flor lanceolada não resiste
como uma estrela fechada
como uma noiva deitada
à espera da madrugada mais verdadeira que existe
se te vierem dizer não olhes a cassiopeia
mas deita-te meu amor
na ponta de cada veia
e encosta o rosto na terra
que a lua fria incendeia
silva encostada ao silêncio
ouvindo a sombra do vento
sobre a areia
sobre a areia
sobre a areia…

Dostoiévski – "Os Irmãos Karamazov"

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Uma análise de Dostoyevsky a partir de “Os Irmãos Karamazov”:
“"Os Irmãos Karamázov" é o último livro de Fiódor Dostoiévski, sendo considerado por muitos críticos e leitores a melhor dentre todas as suas obras. Publicado em 1880, sendo finalizado apenas pouco antes de sua morte, Dostoievski apresenta uma invenção tão grandiosa que a crítica não consegue defini-la até hoje. Os Irmãos Karamázov engloba de tudo: religião, psicologia, filosofia, moralidade, além da culpa, expiação e relacionamentos vividos por cada personagem... Ou seja tudo aquilo que está inerente ao comportamento humano.”
O mundo estilhaçado e a morte libertadora
LUIZ FELIPE PONDÉ
"SE DEUS não existe e a alma é mortal, tudo é permitido" é um enunciado profundamente racional. Não se trata do lamento de uma mente frágil. Os Karamazov são especialistas na pureza da razão teórica e prática.

Herman Hesse, "Quanto mais envelhecia..."

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Quanto mais envelhecia, quanto mais insípidas me pareciam as pequenas satisfações que a vida me dava, tanto mais claramente compreendia onde deveria procurar a fonte das alegrias da vida.
Aprendi que ser amado não é nada, enquanto amar é tudo.
O dinheiro não era nada, o poder não era nada. Vi tanta gente que tinha dinheiro e poder, e mesmo assim era infeliz.
A beleza não era nada. Vi homens e mulheres belos, infelizes, apesar de sua beleza.
Também a saúde não contava tanto assim. Cada um tem a saúde que sente.
Havia doentes cheios de vontade de viver e havia sadios que definhavam angustiados pelo medo de sofrer.
A felicidade é amor, só isto. Feliz é quem sabe amar.
Feliz é quem pode amar muito. Mas amar e desejar não é a mesma coisa. O amor é o desejo que atingiu a sabedoria. O amor não quer possuir. O amor quer somente amar…

Carla Furtado Ribeiro, Tema Original, "Estória de Silêncio"/"Aldeia", Poema, Música e Voz



A minha aldeia é uma estória de silêncio
Solene, hierático, intenso
Ora altivo, ora raro, ora denso
De que as coisas se pressentem povoadas

Um silêncio de brisas transpiradas
Pelos corpos de chão, de terra, de semente
E de tudo o que no homem faz presente
O mistério das coisas insondável

A aldeia é rua de memórias apeadas
Bordadas a vidrilhos de luar
Um jardim de angemas perfumadas
De um perfume impossível de expressar

São memórias e visões revisitadas
Em cada espiga, em cada tronco,
em cada olhar de desfolhada
Que nos fere de emoção aldeia amada
Que nos deixa o coração a soluçar


Carla Furtado Ribeiro, Tema Original, "Ondular" / "Poema para uma Canção", Poema, Música e Voz



O teu rosto adormecido sobre o meu
As tuas mãos abandonadas sobre mim
E nos meus olhos a beleza dos caminhos
Que juntos vamos caminhando até ao fim.

Estrelas ardentes flutuam no meu peito
Sinto-me noite, uma noite funda assim
Como a corrente de água limpa que transborda
Dessa nascente cristalina que há em ti

Ah! À nossa beira, amor, cresceram flores
Plantadas pelas nossas próprias mãos
O teu corpo de homem novo semeou
O que na minha terra fértil se fez pão

Sibilante a aurora nasce tão quieta
Traz o cheiro e a frescura dos começos
Como tu ao acordar trazes gaivotas
Assinalando tempestade em mares incertos

No teu perfil desenham-se as paisagens
Dos montes, das serras, dos altares
E de todas as coisas altas, fortes e eternas
Com que imprimes de saudade o meu olhar

Ah! À nossa beira, amor, cresceram mares
Veludo azul, azul de navegar
Correntes livres serenando imensidades
Sob o teu rosto no meu rosto a ondular

e.e.cummnings, poemas

e.e.cummings, auto-retrato
Sonetos/Irrealidades

pode não ser sempre assim – digo: e se
seus lábios que tanto amo tocarem
outros lábios
e seus dedos tão queridos
forte comprimirem outro coração
– como o meu, num tempo não distante
se a pele de outro rosto, macios seus pelos
roçarem
num silêncio que bem sei ou
ao som de palavras contorcidas
– em voltas, volutas, rodopios –
desamparadas à face do mar
se assim for – digo: se
assim for – amor,
conta-me em breves palavras
que voarei até ele
para – mãos dadas – dizer:
aceita toda esta alegria
que te dou
e voltando meu rosto hei de ouvir
um canto
de pássaro na distância
infinita das terras perdidas

Tradução: Johnatan Lira 


Chamar a Si Todo o Céu com um Sorriso

que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas 
aves que são os segredos da vida 
o que quer que cantem é melhor do que conhecer 
e se os homens não as ouvem estão velhos 

que o meu pensamento caminhe pelo faminto 
e destemido e sedento e servil 
e mesmo que seja domingo que eu me engane 
pois sempre que os homens têm razão não são jovens 

e que eu não faça nada de útil 
e te ame muito mais do que verdadeiramente 
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse 
chamar a si todo o céu com um sorriso 

E. E. Cummings, in "livrodepoemas" 
Tradução de Cecília Rego Pinheiro

Chico Buarque de Hollanda, "Sonhar"

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Sonhar…
Mas um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão.

Florbela Espanca, "Longe"

Imagem0011(Fotografia: C.F.)


Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas;
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!
*
Florbela Espanca

Cassiopeia... (Entre o Direito e a Poesia )


Num certo dia (corria o ano de 1996…)  dirigi-me à Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra em busca de uma obra da autoria do Senhor Professor Doutor Orlando de Carvalho, quando, a dada altura, me deparo alegremente com uma sua obra poética. Um poema, em particular, fascinou-me a ponto de o musicar… tendo-o preservado até hoje como uma preciosidade  que agora publico para que outros dela possam também desfrutar. Na convicção, porém, de que o poema, bem como a ilustre pessoa do seu autor, mereceriam sempre melhor…
Eis o Poema:
Quando os cutelos de sombra
Abordarem a planície
Se te vierem dizer
Que eu te disse
Que eu te disse
Que aquela flor lanceolada
Não resiste
Não resiste
Como uma estrela fechada
Como uma noiva deitada
À espera da madrugada
Mais verdadeira que existe
Se te vierem dizer
Não olhes a cassiopeia
Mas deita-te meu amor
Na ponta de cada veia
E encosta o rosto na terra
Que a lua fria incendeia
Silva encostada ao silencio
Ouvindo a sombra do vento
Sobre a areia
Sobre a areia
Sobre a areia

Eis a composiçao:


Carla Furtado Ribeiro, "Arlequim"




geme a noite, noite escura e fria
ao luar, luar de prata e de cetim
luar que num passe de arlequim
se vai perdendo nas asas da ventania

geme a noite em raivas de silêncio
do tanto que deseja a luz do dia
e a aurora mansa em que adormece
é um tormento
pois quem ama não lhe basta a fantasia

geme a noite de medo e solidão
e cada homem uma noite traz assim
mas é no escuro que se vê com exactidão
aquela luz que se persegue até ao fim

é assim que a vida é a semeadura
da noite da espera da colheita
do inesperado que se aceita
o teu destino é sempre renascer
e ao romper o novo dia
novo sonho com ele há - de chegar
como mãos camponesas a rasgar
as entranhas das terras ressequidas
 


Carla Furtado Ribeiro
(poema musicado pela autora)


Versilibrismo

Literatura:  Escola moderna que se liberta das regras tradicionais da versificação e baseia a poesia no ritmo.

Ruy Belo, "As Casas"


Liza Lorenz

Oh as casas as casas as casas 
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
Elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
Respirei –
ó vida simples problema de respiração 
Oh as casas as casas as casas


A MÃO NO ARADO

Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Ruy Belo, "Helenamente"

Helena de Tróia segundo Evelyn de Morgan, 1898
 Helena de Tróia segundo Evelyn de Morgan, 1898

*
Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
A maneira mais triste de se estar contente
a de estar mais sozinho em meio de mais gente
de mais tarde saber alguma coisa antecipadamente
Emotiva atitude de quem age friamente
inalterável forma de se ser sempre diferente
maneira mais complexa de viver mais simplesmente
de ser-se o mesmo sempre e ser surpreendente
de estar num sítio tanto mais se mais ausente
e mais ausente estar se mais presente
de mais perto se estar se mais distante
de sentir mais o frio em tempo quente
O modo mais saudável de se estar doente
de se ser verdadeiro e revelar-se que se mente
de mentir muito verdadeiramente
de dizer a verdade falsamente
de se mostrar profundo superficialmente
de ser-se o mais real sendo aparente
de menos agredir mais agressivamente
de ser-se singular se mais corrente
e mais contraditório quanto mais coerente
A via enviesada para ir-se em frente
a treda actuação de quem actua lealmente
e é tão impassível como comovente
O modo mais precário de ser mais permanente
de tentar tanto mais quanto menos se tente
de ser pacífico e ao mesmo tempo combatente
de estar mais no passado se mais no presente
de não se ter ninguém e ter em cada homem um parente
de ser tão insensível como quem mais sente
de melhor se curvar se altivamente
de perder a cabeça mas serenamente
de tudo perdoar e todos justiçar dente por dente
de tanto desistir e de ser tão constante
de articular melhor sendo menos fluente
e fazer maior mal quando se está mais inocente
É sob aspecto frágil revelar-se resistente
é para interessar-se ser indiferente
Quando helena recusa é que consente
se tão pouco perdoa é por ser indulgente
baixa os olhos se quer ser insolente
Ninguém é tão inconscientemente consciente
tão inconsequentemente consequente
Se em tantos dons abunda é por ser indigente
e só convence assim por não ser muito convincente
e melhor fundamenta o mais insubsistente
Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
O mar a terra o fumo a pedra simultaneamente



Patxi Andion canta "Me esta doliendo una pena"....

Me está doliendo una pena y no la puedo parar y se revuelve en silencio tumba abierta en soledad y quiero hacerla cometa, para poderla volar. Me está ganando ésta pena y la quiero ceder y busca por ser palabra y es por hacerse entender en brazos de mi guitarra y la tengo que esconder y en mi guitarra quisiera dejar la pena llorar, hacerla surco en el tiempo hacerla tiempo en la mar. Ser con la mar un viento que se la pueda llevar. Me está doliendo ésta pena acuñada en el portal de éste vacío sonoro que no sabe a dónde va, de éste vacío que lloro por quererlo remediar, y en mi guitarra quisiera dejar la pena llorar romper la monotonía de éste pueblo en carnaval, de éste pueblo que me duele cada día más y más y es que es una inmensa pena que me tengo que callar. Me está doliendo una pena... y me tengo que callar...

Antologia de Poetas Contemporâneos, Chiado Editora, 2009

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Apesar de poder dizer como F. Pessoa:

“Ser poeta não é uma ambição minha
É apenas a minha maneira de estar sozinho”

…é com uma brisa de contentamento que anuncio o Livro 
que irá albergar alguns dos meus poemas. 
Há etapas felizes… 
Queiram, pois, desfrutar…

Pedro Homem de Mello, "Poema de Natal"

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O Presépio
Duas tábuas...
E era um berço!

Estaria Deus lá dentro? 
Tudo escuro...
E alumiava!

Fomos a ver...
E lá estava!


                                                                                                    Pedro Homem de Mello

Eclesiates "O futuro..."

comeholyspirit
“O futuro pertence a Deus - "Mais vale o fim de uma coisa do que o seu começo, e a paciência é melhor do que a pretensão...Não digas: " Porque é que os tempos passados eram melhores que os de hoje?" Não é a sabedoria que te faz levantar essa questão. A sabedoria é boa como uma herança, e útil para aqueles que vêm o Sol, pois vive-se à sombra da sabedoria como se vive à sombra do dinheiro. Mas a sabedoria é mais vantajosa, porque faz viver quem a possui."
Eclesiastes 7, 8-14

Gilbert Bécaud, canta "L'indifférence "

L'indifférence 

(clique para ouvir)

*

Les mauvais coups, les lâchetés
Quelle importance
Laisse-moi te dire
Laisse-moi te dire et te redire ce que tu sais
Ce qui détruit le monde c'est :
L'indifférence


...

Carla Furtado Ribeiro, "Sexto Sentido"

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(Regata dos Grandes Veleiros - Aveiro)


Sexto Sentido

no ermo de mim eu me coloco
em ponto de asa delta sobre o mundo

que avisto

do pórtico da minha enseada

não sei de onde venho nem por onde vim

só sei que
quando dei por mim
já pairava
sobre o negrume da terra
que me nascera do nada

quatro pontos cardeais
sinais em cruz
no pó
das minhas mãos assinalados
mil rumos que percorra estão gravados
na pedra cardinal que existe em mim

não sei de onde venho nem por onde vim

só sei que
quando dei por mim

já pairava

sobre a distância que havia

entre este mundo e o nada

*


Garcia Lorca, Poema


ferias5

Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.
O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.

Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de mordiscos e açucenas.
Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

Mafalda Veiga, " Pássaros do Sul "



o bando debandou
subindo do arvoredo
do vácuo que ficou
no fim do seu degredo
as asas abrem chagas
no acinzar do entardecer
e amansam a agonia
do dia a escurecer

ensombram a ribeira
e o verde da seara
e passam pela eira
em que o sol se pousara
nas gotas do orvalho
luarento e vacilante
refrescam o cansaço
e dormem um instante

pássaros do sul
bando de asas soltas
trazem melodias
p'ra cantar às moças
em noites de romaria
em noites de romaria

no adejo da alvorada
oscila a minha mágoa
o céu à  desgarrada
irrompe azul na água
e a passarada acorda
no sonhar de um camponês
e entrega-se no sul
do frio que à  noite fez

É tempo da partida
e a côr do horizonte
adensa a despedida
e o borbotar da fonte
as asas abrem chagas
na poeira o sol acalma
num agitar inquieto
que me refresca a alma

pássaros do sul ...

Haruki Murakami, "A Tempestade do Destino"

Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra. Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direcção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deves imaginar. 

Ortega y Gasset, "O Destino de Cada Homem..."

No ser vivo toda a necessidade essencial, que brota do próprio ser e não lhe advém de fora acidentalmente, vai acompanhada de voluptuosidade. A voluptuosidade é a cara, a facies da felicidade. E todo o ser é feliz quando satisfaz o seu destino, isto é, quando segue a encosta da sua inclinação, da sua necessidade essencial, quando se realiza, quando está a ser o que é na verdade. Por esta razão Schlegel dizia, invertendo a relação entre voluptuosidade e destino: «Para o que nos agrada temos génio». O génio, isto é, o dom superlativo de um ser para fazer alguma coisa tem sempre simultaneamente uma fisionomia de supremo prazer. Num dia que está próximo e graças a uma transbordante evidência vamo-nos ver surpreendidos e obrigados a descobrir o que agora somente parecerá uma frase: que o destino de cada homem é, ao mesmo tempo, o seu maior prazer.

Ortega y Gasset

Dulce Pontes canta "Amor a Portugal"


O dia há-de nascer
Rasgar a escuridão
Fazer o sonho amanhecer
Ao som da canção
E então:
O amor há-de vencer
A alma libertar
Mil fogos ardem sem se ver
Na luz do nosso olhar
Na luz do nosso olhar
Um dia há-de se ouvir
O cântico final
Porque afinal falta cumprir
O amor a Portugal
O amor a Portugal!

Van Gogh, "Starry Night"


Vou guardar o teu sorriso
numa caixa pequena
como tu!
Quando estiver triste levanto a tampa
com muito cuidado para ele não fugir
... a seguir,
como que a medo,
acaricio-o com um dedo
e depois dou-lhe um beijo...
...e a minha tristeza
consome-se em desejo.

M.Guia

Pintura: "Starry Night", Van Gogh

Sempre imaginei que o paraíso seria uma espécie de biblioteca.

Jorge Luís Borges

Salvador Dali (1904-1989 - Surrealismo)

Astor Piazzola, "Balada Para Un Loco"




“Nem palavras, nem imagens suficientes, para transmitir a força libertadora desta música. Que vivam os loucos, todos aqueles que acreditaram em seus sonhos e percorreram os duros caminhos da arte, da sensibilidade e do amor…” 

Maria Bethânea & Fernando Pessoa juntos em "Imitação da Vida"

("Âmbar" era o nome do CD de estúdio. O show foi nomeado "Imitação da Vida")
Bethânea canta e declama versos de Fernando Pessoa -
Um projecto poético-musical de grande qualidade e beleza...

Nietzsche, "Ninguém pode construir em teu lugar"

Nietzsche, by ... (internet)
Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar para atravessar o rio da vida - ninguém, excepto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o.


Raul Carvalho, "Coração sem imagens"


Colagem e Pntura, Andra Haase
Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem
as imagens?
Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica. 
Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.
Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.
Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.
Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.
Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.
E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.


António Ramos Rosa, "Cada árvore..."

Ovelha debaixo de uma árvore perto de Dorset, Inglaterra.

Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
a árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses

A mim ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas Quando a gente as tem na mão E olha devagar para elas ...

   
Alberto Caeiro
(Num meio dia de Primavera..)

Aos meus Pais 

Cecília Meireles, "Búzios somos moendo a vida"


Buzios Men, Dominique Landau

Por que me falas nesse idioma?
perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.
Uma inteligência esparsa aprende
esse convite inadiável.
Búzios somos, moendo a vida
inteira essa música incessante.
Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que o seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir.

Only when he no longer knows what he is doing does the painter do good things.


Degas, pintor


Sophia de Mello Breyner, "Para atravessar contigo o deserto do mundo"






Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Livro Sexto (1962)

Mafalda Veiga, "Grito"



Frida Khalo
Meu Deus, se nos velas
Diz-nos o que é que nos separa
E porque é que o sol demora
Atrás da colina escura
Anda dar luz ao caminho
Que a gente assim desespera
É como sonhar sozinho
Como se o mar fosse raso
E o céu não tivesse altura

Sempre no silêncio
Dá gozo a voz deste chão
Mas ainda me dói a alma
Na dor do corpo e das mãos
Tenho medo deste frio
Que à noite sinto no peito
Como se andassem cavando
Como se andassem fechando
Buracos de solidão

A gente não sabe
O que há depois do horizonte
A gente é um vulto curvado
Com uma sombra defronte
A ouvir rumores na distância
A sentir dentro um segredo
Feito de sonhos calados
Feito de braços fechados
Num poço fundo de medo

Anda dar luz ao caminho
Que já nos dói a demora
É como sonhar sozinho
Um sonho que nunca vinga
Num grito que nunca chora

Lindo poema de Mafalda Veiga

Natália Correia, "Dedicação"



A ti, Mãe, primeira maravilha dada aos meus olhos,
eu dedico estes poemas.
Subida da tua carne, a minha luz pertence-te.
Toma a minha dor e a minha alegria e este desespero
que floresce à sombra do teu mistério.

Carla Furtado Ribeiro, "Fosses uma deserta praia"




Fosses uma deserta praia ou uma terra nua 


Ou um lago esquecido uma face da lua 

A menos iluminada a mais crua 

Ainda assim ainda assim ...


Fosses um fogo apagado uma noite fria 

Uma pedra disforme um abismo 

Uma lança uma espada ou uma arma disparada 

Ao vazio do céu à máscara da vida 

Ainda assim ainda assim ...


Te tomaria ao nevoeiro da noite à bruma do dia 

E num esgar do tempo ou num recanto 

Ainda que imperfeito de harmonia 

Eu te amaria eu te amaria eu te amaria...