Acerca da Vida e das formas imagéticas da sua compreensão segundo a Arte. (Imitação = "Imago" = Imagem ou Representação)
Exegese Literária acerca do livro de poesia “Em Silêncio”, por Doutor Martinho Soares.
Exegese Literária acerca
do livro de poesia “Em Silêncio” de Carla Furtado Ribeiro, Chiado Editora, Lisboa, 2013.
Em silêncio
é o título que marca a estreia fulgurante e muito promissora desta jovem
poetisa, que é simultaneamente mulher de letras e de leis.
Carla Furtado Ribeiro, "Tu Minha Árvore Sem Nome"
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| Klint, painting |
TU MINHA ÁRVORE SEM NOME
Tuminha árvore sem nome, história sem tempomeu leito de abandono e deserção,
RaizAdventícia da esplendorosa Primavera em gestação.
Folhaseminal, trifoliada, oval, orbicular, lobada,folha de ouro, herança de à terra vinculada.
Âmagode todas as luminescências que me habitamcrepúsculos incandescentes, impossíveis que me invitam.mas, tu, agora gota, agora água, agora arco-íris diluído em mágoa,
agora água-régia que embriaga e dissolve em aquarelísticas imagens
esta paz cruciforme das paisagens.
Recantosde pureza inesperada, são teu berço, teu braço,
teu insólito regaço, meu céu debutante e sem cansaço.Oh natureza curvilínea,de cíclicos e solenes retornos sobre a terra!
Só tu,sempre estas águas, mansamente debruçadassobre minhas esquivas margens escarpadas…
Carla Furtado Ribeiro, "De palavras se escreve amar"
de palavras
se escreve amar
que amar cegue
de luz palavras
que de palavras
breve escreve
o ser de não ser
senão palavras
mas se de palavras
amar se escreve
que de folhas brancas
vida leve
o que de palavras
breve
e reste apenas
o ser no ser
de existir
no princípio do Verbo
que no princípio
O era e para sempre
Ser
Sessão de Apresentação e Autógrafos em Coimbra .
O Livro de Poesia "Em Silêncio" de Carla Furtado Ribeiro, Chiado Edit. Lx. 2013, será apresentado pelo Professor Doutor Martinho Tomé Martins Soares, Mestre e Doutorado
em Poética e Hermenêutica pela Universidade de
Coimbra, no próximo dia 25 de Out. pelas 18h30 no emblemático Café Santa Cruz, em Coimbra.
Esta Sessão é promovida pela Bertrand Livreiros.
Convido-vos a estarem presentes.
J. L. Silva , "Os dias parecem tão iguais"
Os dias, esses pássaros amarelos,
parecem tão iguais
Parecem indiferentes ao bem e ao mal
os dias que nascem solitários
do outro lado do círio aceso da aurora
e da vida que se debruça à janela
Um vento leve leva as palavras,
sonolentas,
sem nehum destino
É cedo para que se diga
que a vida não vale nada
É cedo para se bater à Porta da Verdade
É tarde para se apagar o antigo nome,
o antigo e inelutável sonho
Os finais de tarde apagam-se em azuis
e dourados,
tendendo a vermelho,
mas nem por isso descuida-se do gesto
que, lentamente, trará a noite imensa
sob a sombra de uma folha,
sob o aroma dos lírios
A noite estilhaça o vítreo
incandescente das estrelas
e o céu, suspenso por cordões de marionete,
transborda de pontinhos úmidos de azul
e de eternidades
Pululam estrelinhas na noite
enquanto o poema espera
pelo sensível momento da flor,
da rosa que se desvela em arabescos
prateados pela ternura da lua
É cedo para dizer que a vida é um breve
e irremediável sonho inútil
que põe esta lágrima nos meus olhos,
deambulando pelas velhas ruas tímidas
e inauditamente tristes
É cedo para pedir à sina (esquiva) que
leve esta tristeza que me permeia
como o perfume de sândalo e de saudades
É cedo para tentar entender a fábula
contida no vento e no orvalho
que amanhece nas folhas e nas pétalas das flores
Viestes ver a manhã que apascenta
as brancas nuvens tecidas em mármore?
Viestes ver a manhã amarela
e os campos onde sonham os girassóis?
À noite eram outros os sonhos,
densos e sincopados
Na noite retinta assomam os olhos
medievos
esquecidos no passado
A estrela cadente resvala pelo espaço
incendiando
o céu em seus rumores de brasas
calcinando o instante,
marchetando os sonhos
Faço o meu pedido, contundente como
o barro da infância,
inaudito como o murmúrio das noites
e o silêncio dos caminhos intangíveis
Só a estrela me ouve...
Ao meu pedido
e ao som dolente da flauta que vinha
com as noites incertas e silentes
Só a estrela...
Em palavras de criança tudo pode ser pedido enquanto a estrela cai
--
@J. L. Silva [ Todos os direitos reservados]
As palavras deveriam servir somente para dar forma e delineação ao silêncio. E cada palavra é como um pequeno marco ou um pequeno relevo ao longo de infindáveis caminhos planos e extensos, e vastas planícies.
Etty Hillesum
Esta tarde vi gravuras japonesas com o Glassner.
E de repente fiquei a saber:
é assim que eu quero escrever.
Com um espaço imenso à volta das palavras.
Detesto muitas palavras.
Quereria escrever somente palavras
organicamente inseridas num grande silêncio,
Al Berto, Diários
[…]
[Não posso continuar com coisas exteriores à minha escrita a perturbarem-me. Tenho de avançar rapidamente com o projecto que me obceca há muito. O tempo faz-se escasso.
Faz um frio de partir os ossos. Os dias cheios dum sol espantoso, uma limpidez que se vê a costa até ao Cabo Sardão. Às vezes desejaria ter sido pastor, homem transumante. Ir e regressar, com o sol e com as chuvas, ir e regressar sempre com o ciclo das estações…
Fiz 36 anos, hoje, acabaram-se para sempre algumas coisas, outras iniciam-se agora, só a juventude não se recomeça nem tem início hoje… Tenho de começar a habituar-me à grande desolação dos dias, sempre mais vazios, sem ninguém, porque assim o quis.
A partir de hoje tenho o tempo todo para escrever, para não fazer nada, envelhecerei calmamente. Tenho a certeza. Não há tempo, ainda bem!]
in «Diários», de Al Berto (11-01-1948 § 13-06-1997)
Ana Pinto, "Silêncio"
Vou dizer-te com silêncio.
Sim, silêncio, porque quando se está muito próximo
todos os sons perdem o sentido.
Nem a música,
nem a mais leve vibração te nomearia agora.
Tenho um feixe de electrões estancados
nos lábios, erradicando o erro da luz.
Poderia ter uma palavra, uma palavra pérola, pálida,
polida, porcelânica, poderia
ter um pequeníssimo sopro terso – mas não.
Precisamos do erro posterior
ao ocaso
para beber o silêncio por um copo
com o céu por abismo e a terra por céu.
Colho uma rosa à noite,
com uma colher, à voltagem e à ordem
onde se movimentam
as pétalas molhadas
do vapor da cúpula, uma rosa levemente cansada
de girar a sua cauda
e verto-a assombrosa e cuidadosamente
ao copo em fervedura azul:
Bebemos chá de rosas em silêncio.
Depois, no livro que está sempre
sobre o pano azul da mesa eu leio os versos,
tu lês os números -
E todo o oceano dos mundos
exala um perfume rubro a rosas
aquele perfume que arde sempre nas rosas
mais rubras.
--
@Ana Pinto [Todos os direitos reservados]
Carla Furtado Ribeiro, "Das Aves e das Manhãs"
Eu sou a solene maciez do linho
A perturbante lisura das espadas
Eu sou a prenda, a pressa do caminho
Eu sou o cada dia renascer do nada
Eu sou a estreiteza imperfeita das levadas
Uma manhã de luzes sobre o trilho
De pó, de pedra, de destino. brilho.
Eu sou a intrepidez das aves mutiladas
Estranhamente eu sou e não sou, desdigo
Ser, não ser, não sei, persigo e desperto
Aqui. agora. só sei que estou contigo.
Carla Furtado Ribeiro, "Claire Matin"
CLAIRE MATIN
Sigo
rotas interiores
desenho
a tua ausência
e estou contigo
destino tatuado
em transparência
do teu ser
que me persigo
neste perigo de existir
sem desistir
me desatas e desmentes
de aparências
e no que não nasci
nasço contigo
e te amo de palavras
que não digo
mas que sabes
mas que inventas
e no que me inventas
eu me abrigo
desfaço-me de indefinições
e toda sou um rio
em uma “claire matin”
os pássaros pousando na manhã
são como seres que sobre-humanos existissem
e pressentissem o sobre-humano nós
e em penas se desfizessem cantos
em pétalas se colhessem flores
e este canto de vida é que embriaga
e no que me inventas não apaga
o que de não ter acontecido
mais se amou
desperta desse frio de ternura
e renasce de candura
… existir é brando…
… viver é puro…
e eu sou
a que no mundo
transfiguro
o pó de nada ser
no ouro precioso
das manhãs
@Carla Furtado Ribeiro, "Em Silêncio", Chiado Ed., 2013
Créditos
Poema: "Claire Matin" de Carla Furtado Ribeiro
Música : Saint Preux - Abigail
Vídeo: http://youtu.be/ 66o8xyy0bzw
Livro de Poesia "Em Silêncio", de Carla Furtado Ribeiro, Chiado Editora, Lisboa, 2013
Disponível, também, nas Livrarias Online em:
(ou em qualquer Livraria perto de si, mediante encomenda).
SINOPSE (Excerto)
"O título - "Em Silêncio" – pretende remeter para um silêncio de timbre meditativo, que é um meio e não um fim em si próprio. Um silêncio em cujo seio é possível cultivarem-se talentos e medir- se-lhes a força e a profundidade. Um silêncio de onde brotam, afinal, senão todas as palavras, pelo menos aquelas que a autora considera as essenciais. Um silêncio criativo no qual se aperfeiçoa a arte que se deseja manifestar, e que não é a ausência de nada, mas, antes, a presença de tudo quanto de belo se possa admirar, cultivar e expressar. Finalmente, é, também, um silêncio Habitado pelo que de mais elevado nos inspira e a que poderemos chamar Deus, Amor ou, simplesmente… Silêncio. " A autora.
"Da mais alta janela de minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos
Que partem para a humanidade"
Fernando Pessoa
Jorge de Sena, "Como queiras, Amor..."
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| Magritte, Painting |
Entregue a ti, a tudo me abandono,
seguro e certo, num terror tranquilo.
A tudo quanto espero e quanto temo,
entregue a ti, Amor, eu me dedico.
Nada há que eu não conheça, que eu não saiba,
e nada, não, ainda há por que eu não espere
como de quem ser vida é ter destino.
As pequeninas coisas da maldade, a fria
tão tenebrosa divisão do medo
em que os homens se mordem com rosnidos
de malcontente crueldade imunda,
eu sei quanto me aguarda, me deseja,
e sei até quanto ela a mim me atrai.
Como queiras, Amor, como tu queiras.
De frágil que és, não poderás salvar-me.
Tua nobreza, essa ternura tépida
quais olhos marejados, carne entreaberta,
será só escárneo, ou, pior, um vão sorriso
em lábios que se fecham como olhares de raiva.
Não poderás salvar-me, nem salvar-te.
Apenas como queiras ficaremos vivos.
Será mais duro que morrer, talvez.
Entregue a ti, porém, eu me dedico
àquele amor por qual fui homem, posse
e uma tão extrema sujeição de tudo.
Como tu queiras, meu Amor, como tu queiras.
Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'
Rainer Maria Rilke, "O Homem que Contempla"
| Rainier Maria Rilke |
O Anjo
Com um mover da fronte ele descarta
tudo o que obriga, tudo o que coarta,
pois em seu coração, quando ela o adentra,
a eterna Vinda os círculos concentra.
O céu com muitas formas lhe aparece
e cada qual demanda: vem, conhece -.
Não dês às suas mãos ligeiras nem
um só fardo; pois ele, à noite, vem
à tua casa conferir teu peso,
cheio de ira, e com a mão mais dura,
como se fosses sua criatura,
te arranca do teu molde com desprezo.
O Fruto
Subia, algo subia, ali, do chão,
quieto, no caule calmo, algo subia,
até que se fez flama em floração
clara e calou sua harmonia.
Floresceu, sem cessar, todo um verão
na árvore obstinada, noite e dia,
e se soube futura doação
diante do espaço que o acolhia.
E quando, enfim, se arredondou, oval,
na plenitude de sua alegria,
dentro da mesma casca que o encobria
volveu ao centro original.
Com um mover da fronte ele descarta
tudo o que obriga, tudo o que coarta,
pois em seu coração, quando ela o adentra,
a eterna Vinda os círculos concentra.
O céu com muitas formas lhe aparece
e cada qual demanda: vem, conhece -.
Não dês às suas mãos ligeiras nem
um só fardo; pois ele, à noite, vem
à tua casa conferir teu peso,
cheio de ira, e com a mão mais dura,
como se fosses sua criatura,
te arranca do teu molde com desprezo.
O Fruto
Subia, algo subia, ali, do chão,
quieto, no caule calmo, algo subia,
até que se fez flama em floração
clara e calou sua harmonia.
Floresceu, sem cessar, todo um verão
na árvore obstinada, noite e dia,
e se soube futura doação
diante do espaço que o acolhia.
E quando, enfim, se arredondou, oval,
na plenitude de sua alegria,
dentro da mesma casca que o encobria
volveu ao centro original.
Tomas Tranströmer , Poema
...
Não há vazios por aqui.
É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.
Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.
Herberto Helder, "Tríptico"
| Miró, "Swallow Love" |
I
Transforma-se o amador na coisa amada com seu
feroz sorriso, os dentes,as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.
Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.
Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.
E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo
e do amor.
(in Ofício Cantante)
---
VI
É preciso falar baixo no sítio da primavera, junto
à terra nocturna. Junto à terra transfigurada.
Tudo ouve as minhas palavras talvez irremediáveis.
Infatigável perfume se acrescenta nos jacintos, fogo
sem fim circunda suas raízes leves.
É preciso não acordar do seu ofício a luz que inclina
os meus espinhos frios,
a lua que inclina meu sangue ligado e o sangue
da terra nocturna.
Agora a primavera trabalha nas galerias mais antigas,
bate os seus martelos contra um milhão de estrelas.
E uma coisa estupenda a primavera que trabalha
nas caveiras dos cavalos enterrados.
E os cavalos ressuscitam pela noite adiante.
Inspiro-me na primavera com suas grutas de água
atenta, e amo a loucura —
a cabeça gelada sobre a corrente pura do terror.
Tenho medo de erguer a voz mais alto
que o meu coração onde uma candeia
concentra um grande silêncio.
A primavera é algo prodigioso para o meu desbarato.
Que a tristeza me ajude, que me ajudem
os dentes da minha boca, os dedos das minhas mãos,
todos os mortos, todos os que amam
entre sangue no mundo, entre as águas
das noites eternas.
Sinto os ossos ascenderem às cobras na cabeça —
e a obra está nas mãos.
Terra, terra preenchida. Enquanto os outros dormem,
fundo-me no verbo interior da primavera
como o vermelho se funde na flor futura.
Tu cantavas, sangue, a torrente translúcida da morte.
Cantavas o que já se não quebra com o uso
das vozes. Porque tu eras a minha
água salgada.
Fecho os olhos para ver como as acácias se iluminam
e a rutilação ascende pelas veias.
Tomo entre meus dedos a soturna amplidão dos mortos.
Primavera, como cresces.
Desespero ou alegria, como correm
nos membros reaparecidos.
Dizer devagar na humidade da carne,
evocar tuas colinas de sal, mistério.
Tudo em volta da primavera e da noite
com uma porta no coração para passar
num tremendo silêncio.
Ressuscitar uma vez com a cara extrema
junto a líquenes inocentes.
Entre os meses saber de um só que pede
a mudez aterradora.
A primavera cresce num núcleo de ideias, as cabras
evaporam-se, reaparecem em espírito
mastigando giestas. Primavera é uma palavra
numa língua demasiado estrangeira.
Uma coisa enorme, sem música.
Falo tão devagar que mal distingo
a noite sobre a terra
da minha garganta onde os animais passam
lentamente inspirados.
Só encosto a testa ao oculto fogo dos nomes,
e o sangue alimenta a loucura
devagar, devagar — como quem ressuscita.
In Ou o Poema Contínuo, São Paulo: A Girafa Editora, 2006, pp. 87-89
Paul Eluard, A Morte o Amor a Vida"
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| Chagall, "Cantique" |
Julguei que podia quebrar a profundeza a imensidade
Com o meu desgosto nu sem contacto sem eco
Estendi-me na minha prisão de portas virgens
Como um morto razoável que soube morrer
Um morto cercado apenas pelo seu nada
Estendi-me sobre as vagas absurdas
Do veneno absorvido por amor da cinza
A solidão pareceu-me mais viva que o sangue
Queria desunir a vida
Queria partilhar a morte com a morte
Entregar meu coração ao vazio e o vazio à vida
Apagar tudo que nada houvesse nem o vidro nem o orvalho
Nada nem à frente nem atrás nada inteiro
Havia eliminado o gelo das mãos postas
Havia eliminado a invernal ossatura
Do voto de viver que se anula
Tu vieste o fogo então reanimou-se
A sombra cedeu o frio de baixo iluminou-se de estrelas
E a terra cobriu-se
Da tua carne clara e eu senti-me leve
Vieste a solidão fora vencida
Eu tinha um guia na terra
Sabia conduzir-me sabia-me desmedido
Avançava ganhava espaço e tempo
Caminhava para ti dirigia-me incessantemente para a luz
A vida tinha um corpo a esperança desfraldava
O sono transbordava de sonhos e a noite
Prometia à aurora olhares confiantes
Os raios dos teus braços entreabriam o nevoeiro
A tua boca estava húmida dos primeiros orvalhos
O repouso deslumbrado substituía a fadiga
E eu adorava o amor como nos meus primeiros tempos
Os campos estão lavrados as fábricas irradiam
E o trigo faz o seu ninho numa vaga enorme
A seara e a vindima têm inúmeras testemunhas
Nada é simples nem singular
O mar espelha-se nos olhos do céu ou da noite
A floresta dá segurança às árvores
E as paredes das casas têm uma pele comum
E as estradas cruzam-se sempre
Os homens nasceram para se entenderem
Para se compreenderem para se amarem
Têm filhos que se tornarão pais dos homens
Têm filhos sem eira nem beira
Que hão-de reinventar o fogo
Que hão-de reinventar os homens
E a natureza e a sua pátria
A de todos os homens
A de todos os tempos.
Algumas Palavras, tradução de António Ramos Rosa
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