Degas, pintor
Acerca da Vida e das formas imagéticas da sua compreensão segundo a Arte. (Imitação = "Imago" = Imagem ou Representação)
Sophia de Mello Breyner, "Para atravessar contigo o deserto do mundo"
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento
Livro Sexto (1962)
Mafalda Veiga, "Grito"
![]() |
| Frida Khalo |
Meu Deus, se nos velas
Diz-nos o que é que nos separa
E porque é que o sol demora
Atrás da colina escura
Anda dar luz ao caminho
Que a gente assim desespera
É como sonhar sozinho
Como se o mar fosse raso
E o céu não tivesse altura
Sempre no silêncio
Dá gozo a voz deste chão
Mas ainda me dói a alma
Na dor do corpo e das mãos
Tenho medo deste frio
Que à noite sinto no peito
Como se andassem cavando
Como se andassem fechando
Buracos de solidão
A gente não sabe
O que há depois do horizonte
A gente é um vulto curvado
Com uma sombra defronte
A ouvir rumores na distância
A sentir dentro um segredo
Feito de sonhos calados
Feito de braços fechados
Num poço fundo de medo
Anda dar luz ao caminho
Que já nos dói a demora
É como sonhar sozinho
Um sonho que nunca vinga
Num grito que nunca chora
Lindo poema de Mafalda Veiga
Natália Correia, "Dedicação"
eu dedico estes poemas.
Subida da tua carne, a minha luz pertence-te.
Toma a minha dor e a minha alegria e este desespero
que floresce à sombra do teu mistério.
Carla Furtado Ribeiro, "Fosses uma deserta praia"
Fosses uma deserta praia ou uma terra nua
Ou um lago esquecido uma face da lua
A menos iluminada a mais crua
Ainda assim ainda assim ...
Fosses um fogo apagado uma noite fria
Uma pedra disforme um abismo
Uma lança uma espada ou uma arma disparada
Ao vazio do céu à máscara da vida
Ainda assim ainda assim ...
Te tomaria ao nevoeiro da noite à bruma do dia
E num esgar do tempo ou num recanto
Ainda que imperfeito de harmonia
Eu te amaria eu te amaria eu te amaria...
Carla Furtado Ribeiro, "Aguarela"
Esboçada sobre uma tela
Pintura de encantar
Queria ser filha do tempo
Divagar em pensamento
Com ele ir nele voltar
Queria ser visão fugaz
Que se esvai mas que se traz
No coração
Queria ser uma guitarra
Um fado uma tricana
Capa preta uma canção
E queria ser a saudade
Para chorar à vontade
Tons que trago em mim
Queria se a eternidade
O não - ser a imensidade
Desse olhar terno cetim
Mas, queria ser também a flor
O perfume redentor
De promessas ao luar
Rosa jasmim amor-perfeito
Ser a flor que nesse peito
Lembra amor a quem amar
- Ser o amor que neste peito
Lembra, flor, por quem esperar...
A. Botto, "Se fosses luz, serias a mais bela"
Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: — a luz do dia!
— Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
— Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água, música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
— Mas de tudo que possas ser na vida
Só quero, meu amor, que sejas alma!
Excertos gloriosos
"Teresa, você é a coisa mais bonita que eu vi até hoje na minha vida, [inclusive o porquinho-da-índia que me deram quando eu tinha seis anos]"
Manuel Bandeira
Excertos dolorosos
"Mesmo para os descrentes há a pergunta duvidosa: e depois da morte? Mesmo para os descrentes há o instante de desespero: que Deus me ajude... Venha, Deus, venha. Mesmo que eu não mereça, venha. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que eu não sei usar amor: às vezes parecem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e continuo inquieta e infeliz, é porque preciso que Deus venha. Venha antes que seja tarde demais."
Clarice Lispector
Clarice Lispector, "Meu Deus, me dê a coragem"
![]() |
| Rafal Olbinsky |
Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios da Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em Teus braços
o meu pecado de pensar.
Ninho de Pedra e um poema para minha mãe
[Para minha Mãe]
A ti que me diste tu vida,
tu amor y tu espacio.
A ti que cargaste en tu vientre dolor y cansacio.
A ti que peleaste con uñas y dientes
valiente en tu casa y en cualquier lugar
a ti rosa fresca de abril
a ti mi fiel querubín.
A ti te dedico mis versos, mi ser mis victorias
a ti mis respetos, Señora, Señora, Señora
A ti mi guerrera invencible,
a ti luchadora incansable
a ti mi amiga constante de todas las horas.
Su nombre es un nombre común
como las margaritas
siempre en mi boca presencia
constante en mi mente
Y para no hacer tanto alarde
Esa Mujer de quien hablo
a ti rosa fresca de abril
a ti mi fiel querubín.
A ti te dedico mis versos, mi ser mis victorias
a ti mis respetos, Señora, Señora, Señora
A ti mi guerrera invencible,
a ti luchadora incansable
a ti mi amiga constante de todas las horas.
Su nombre es un nombre común
como las margaritas
siempre en mi boca presencia
constante en mi mente
Y para no hacer tanto alarde
Esa Mujer de quien hablo
es linda mi amiga Gaviota,
Su nombre es: MI MADRE
*
(Busca-se a autoria deste poema.)
Maria Bethânia canta "Luz da Cidade"
A luz da cidade cintila O palco é a rua deserta Aberta, tranqüila A mesma voz a cantar ... Estive em cada solidão Em forma de canção Espalhei-me no ar
Roberto Mendes, Jorge Portugal
Fernando Pessoa (Ricardo reis), "Segue o teu destino"
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
Eugénio de Andrade, "As mãos"
Eugénio de Andrade, "As Mãos e os Frutos"
Carla Furtado Ribeiro, "Portugal"
PORTUGAL
Não suporto estes flautistas de Hamelin
que não ouvem a gritar a sua bandeira
aquela que é tão feita de verdade
a que jurou ser nossa a vida inteira
Mas mais odeio os profetas da desgraça
trovador sou de almas verdes a cantar
canto o hino de um povo que não vende
o orgulho que lhe sangra sem parar
Esse orgulho que lhe sangra sem parar
é seiva lusitana genuína
viriatos somos todos, todos temos
a profundeza d’alma a forma fina
É sempre em teu regaço que repouso
somente o teu céu me faz sonhar
mas se algum dia te perder, meu Portugal
é porque já não sou eu vem- me buscar
E és tu portugal meu bem-querer
aquele que eu canto sentidamente
e nas trovas de amor só tu o sabes
é a ti que me declaro sempre, sempre
Carla Furtado Ribeiro, "Homem prosaico"
| Clairvoyance (Self-Portrait), 1936 |
HOMEM PROSAICO
O riso ternura dos teus lábios aceno
O perfume cristal do teu pescoço gazela
O cálice tempo que a tua força sustenta
Por sobre a mesa
A face branca do teu rosto luar
O vibrar filigrana do teu olhar crepúsculo
A gravata atadura que o teu colarinho prende
Sobre a camisa
O movimento distinto dos teus ossos alabastro
A cadência musical da tua respiração pássaro
Os botões de punho ouro com que distingues
A tua prosaica existência
O domesticado ondulante do teu cabelo mar
A ajeitada selva da tua barba amazónia
O aftershave subjecticida, auto-repelente com que abafas
A tua identidade
O sonho defraudado da tua juventude bandeira
A lágrima chuva dos teus olhos céu
O coração puído que te recorda a distância
De ti próprio
*
Feliz Páscoa

Não me movimenta, meu Deus, para querer-Te
O céu que me havias prometido;
Nem me movimenta o inferno tão temido,
Para deixar por isso de ofender-Te.
Tu me movimentas, Senhor!
Movimenta-me o ver-Te
Cravado em uma cruz e escarnecido!
Movimenta-me o ver Teu corpo tão ferido.
Movimenta-me Tuas afrontas e Tua morte.
Movimenta-me, enfim, Teu amor de tal maneira,
Que, ainda que não houvesse céu, eu Te amaria,
E, ainda que não houvesse inferno Te temeria.
Não tens que dar-me nada porque Te amo,
Porque, ainda enquanto espero não esperaria,
O mesmo que Te amo Te amaria.
(Anónimo, Séc. XVI)
Poema de Matilde Rosa Araújo oferecido pela minha mãe, neste dia, ao acaso...
- Mãe! O mundo é mau,
Torna a flor num lodo
E o pássaro num verme,
E eu não sabia...
- Filha! Semeia flores no lodo,
Empresta o teu canto ao verme.
Se as tuas mãos continuarem puras
E meigo o teu coração,
Acredita que o mundo é belo.
Torna a flor num lodo
E o pássaro num verme,
E eu não sabia...
- Filha! Semeia flores no lodo,
Empresta o teu canto ao verme.
Se as tuas mãos continuarem puras
E meigo o teu coração,
Acredita que o mundo é belo.
E saberás!
"Vida" de Matilde Rosa Araújo
(Obrigada Mãe!)
Carla Furtado Ribeiro, "Metamorfose"
é na água dos teus olhos que me nascem
as palavras de gelo com que esculpo
a tua antevisão inexplorada
as palavras de gelo com que esculpo
a tua antevisão inexplorada
se não fosse o silêncio percutido do nada
um hiato atravessou-nos na esfera do tempo
como crisálida desfiando a madrugada
e nós cedemos à metamorfose inesperada
Carla Furtado Ribeiro, "Vozes do Mar"
Acompanho-te
À beira do mar
À beira do mar
Onde o vento esmaga
Gotas de água contra a terra
Num temporal de fúria.
Que te deu para passeares
À beira deste mar enfurecido
Quando o céu chove
Como quem chora
Em desalmada tristeza…?
Deveras, a melancolia não é uma doença…
Mas, um remédio contra a lucidez…
Sim. Contra a sobreexistência de alguns vivos…
Segredo-te
Segredo ao teu ouvido
O silêncio das manhãs enfeitiçadas por luz
E tu segues o meu olhar como quem busca um Deus
Eu não profetizo a beleza que te conto
Vejo-a como quem acredita no vento,
E na existência do amor
Vejo-a como quem acredita no Tempo...
(Que tudo purifica...)
Segredo ao teu ouvido
O silêncio dos nenúfares a vogar
E sei que não entendes,
Porque para ti as flores não têm alma
Mas eu digo que nós somos a alma das coisas
O términus de todos os significados
Em nós desagua o simbolismo da vida
Não há quem entenda
Eu segredo ao teu ouvido
Não porque entendas,
Mas para que entendas
Eu segredo-te
As metáforas imprecisas
Dos motivos e dos porquês
E tu debruças-te como se
Pela primeira vez
Sobre o lago da existência.
Mas a essencial pergunta não te ocorre:
Não vês que é no vagar e no silêncio que se morre?
Não vês que sou eu que não entendo?
Não vês que eu sou uma pergunta irretratável?
Não vês que eu não tenho respostas?
Por isso me nutro de beleza e de silêncio:
- As únicas coisas do mundo que não precisam explicação,
espelhos que são a minha casa.
Carla Furtado Ribeiro, "Aldeia"
ALDEIA
A minha aldeia é uma história de silêncio
Solene, hierático, intenso
ora altivo, ora raro, ora denso
De que as coisas se pressentem povoadas
Um silêncio de brisas transpiradas
Pelos corpos de chão, de terra, de semente
E de tudo o que no Homem faz presente
O mistério das coisas, insondável
A aldeia é rua de memórias apeadas
Bordadas a vidrilhos de luar
um jardim de angemas perfumadas
De um perfume impossível de expressar
São memórias e visões revisitadas
Em cada pedra, em cada tronco,
Em cada espiga de milho,
Em cada olhar de desfolhada
Que nos fere de emoção, aldeia amada
Que nos deixa o coração a soluçar.
[poema musicado pela autora]
Carla Furtado Ribeiro, "Versos"
VERSOS
rios de cristal
anseiam por mar
cores da minh’alma
só a cantar
versos distantes
vivem tão perto
pedaços de vida
ou de um sonho
entreaberto
imagens perdidas
abraços do tempo
poemas refaço
ao compasso do vento
liturgias nocturnas
canções de ninar
pregões apregoados
navios a filar
porfiar e porvir
ilusões de regaço
muros deixo ruir
e em palavras retraço
sentimentos demais
demais é tão profundo
poema que entendes
terreno fecundo
de palavras me visto
de poemas me invento
melodia é contorno
viola adorno
sentir tão intenso
sentir tão intenso
sentir tão intenso
Carla Furtado Ribeiro, "Simplicidade"
Eu quisera não querer nada
E que tudo fosse para mim
como o leito inundado de um rio
onde tudo fosse tudo
e não houvesse o vazio
de não saber por onde ser
(1998)
(1998)
Carla Furtado Ribeiro, "Invocação"
![]() |
| The Kiss, Klimt |
misterioso olhar
pleno de estrelas
infantilmente presas
às meninas dos teus olhos
e que num repente
me adormecem de silêncios
és tu que vens chamando
pelo meu nome
e és tu que chegas pleno
das ternuras
com que alimentas
a raíz dos meus afectos
e depois chamam-me doce
mas sou tua
eu sou apenas
o afluente
dos teus gestos
Carla Furtado Ribeiro, "Mar selvagem"
Nesta serra-infância colhi
as pétalas ardentes do sonho
que ontem, hoje e amanhã
enchem a minha vida sempre em flor
além aquele horizonte azul de tão longínquo
persegue-me em todas as direcções
longe ou perto, cá por dentro, sou feita deste azul
e em cada passo incerto me persigo
em busca deste mar selvagem
Para começar...
Inicio, hoje, o meu novo blog sem saber muito bem onde este me levará, mas, pretende ser sobretudo uma tentativa de introspecção partilhada das minhas experiências e pensamentos.
"Imitação da Vida" é o título de um trabalho musical dessa grande diva da canção Brasileira - Maria Bethânia - no qual a música se entrelaça de uma forma maravilhosa e profunda com a eterna poesia de Fernando Pessoa, motivo pelo qual, em jeito de homenagem, decido dar a este blog essa designação, pois, tudo o que aqui escreva ou registe, vindo embora de mim, nunca passará senão de uma parábola dos sentidos que procuro.
"Imitação da Vida" é o título de um trabalho musical dessa grande diva da canção Brasileira - Maria Bethânia - no qual a música se entrelaça de uma forma maravilhosa e profunda com a eterna poesia de Fernando Pessoa, motivo pelo qual, em jeito de homenagem, decido dar a este blog essa designação, pois, tudo o que aqui escreva ou registe, vindo embora de mim, nunca passará senão de uma parábola dos sentidos que procuro.
Carla Furtado Ribeiro, "Amigo"
"Por ti falo. E ninguém sabe. Mas eu digo
meu irmão minha amêndoa meu amigo"
Ary dos Santos, Poeta das Canções,"Retrato de Amigo"
AMIGO
Para ti escrevo quem o sabe quem o diz
Meu amigo minha ternura flor-de-lis
Minha impúbere aventura meu ninho
Minha ânfora onde vaso meu caminho
Por ti choro quando em versos me sorrio
Por ti rio se em palavras me confundo
Pois tu és meu irmão, gémeo profundo
Minha lira de uma noite enluarada
Meu aroma de trigo minha água
Minha fogueira minha serra claridade
Com que forças desejava pertencer
À medula dessa tua intensidade…
Subscrever:
Mensagens (Atom)








.jpg)












