Mafalda Veiga, " Pássaros do Sul "



o bando debandou
subindo do arvoredo
do vácuo que ficou
no fim do seu degredo
as asas abrem chagas
no acinzar do entardecer
e amansam a agonia
do dia a escurecer

ensombram a ribeira
e o verde da seara
e passam pela eira
em que o sol se pousara
nas gotas do orvalho
luarento e vacilante
refrescam o cansaço
e dormem um instante

pássaros do sul
bando de asas soltas
trazem melodias
p'ra cantar às moças
em noites de romaria
em noites de romaria

no adejo da alvorada
oscila a minha mágoa
o céu à  desgarrada
irrompe azul na água
e a passarada acorda
no sonhar de um camponês
e entrega-se no sul
do frio que à  noite fez

É tempo da partida
e a côr do horizonte
adensa a despedida
e o borbotar da fonte
as asas abrem chagas
na poeira o sol acalma
num agitar inquieto
que me refresca a alma

pássaros do sul ...

Haruki Murakami, "A Tempestade do Destino"

Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra. Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direcção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deves imaginar. 

Ortega y Gasset, "O Destino de Cada Homem..."

No ser vivo toda a necessidade essencial, que brota do próprio ser e não lhe advém de fora acidentalmente, vai acompanhada de voluptuosidade. A voluptuosidade é a cara, a facies da felicidade. E todo o ser é feliz quando satisfaz o seu destino, isto é, quando segue a encosta da sua inclinação, da sua necessidade essencial, quando se realiza, quando está a ser o que é na verdade. Por esta razão Schlegel dizia, invertendo a relação entre voluptuosidade e destino: «Para o que nos agrada temos génio». O génio, isto é, o dom superlativo de um ser para fazer alguma coisa tem sempre simultaneamente uma fisionomia de supremo prazer. Num dia que está próximo e graças a uma transbordante evidência vamo-nos ver surpreendidos e obrigados a descobrir o que agora somente parecerá uma frase: que o destino de cada homem é, ao mesmo tempo, o seu maior prazer.

Ortega y Gasset

Dulce Pontes canta "Amor a Portugal"


O dia há-de nascer
Rasgar a escuridão
Fazer o sonho amanhecer
Ao som da canção
E então:
O amor há-de vencer
A alma libertar
Mil fogos ardem sem se ver
Na luz do nosso olhar
Na luz do nosso olhar
Um dia há-de se ouvir
O cântico final
Porque afinal falta cumprir
O amor a Portugal
O amor a Portugal!

Van Gogh, "Starry Night"


Vou guardar o teu sorriso
numa caixa pequena
como tu!
Quando estiver triste levanto a tampa
com muito cuidado para ele não fugir
... a seguir,
como que a medo,
acaricio-o com um dedo
e depois dou-lhe um beijo...
...e a minha tristeza
consome-se em desejo.

M.Guia

Pintura: "Starry Night", Van Gogh

Sempre imaginei que o paraíso seria uma espécie de biblioteca.

Jorge Luís Borges

Salvador Dali (1904-1989 - Surrealismo)

Astor Piazzola, "Balada Para Un Loco"




“Nem palavras, nem imagens suficientes, para transmitir a força libertadora desta música. Que vivam os loucos, todos aqueles que acreditaram em seus sonhos e percorreram os duros caminhos da arte, da sensibilidade e do amor…” 

Maria Bethânea & Fernando Pessoa juntos em "Imitação da Vida"

("Âmbar" era o nome do CD de estúdio. O show foi nomeado "Imitação da Vida")
Bethânea canta e declama versos de Fernando Pessoa -
Um projecto poético-musical de grande qualidade e beleza...

Nietzsche, "Ninguém pode construir em teu lugar"

Nietzsche, by ... (internet)
Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar para atravessar o rio da vida - ninguém, excepto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o.


Raul Carvalho, "Coração sem imagens"


Colagem e Pntura, Andra Haase
Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem
as imagens?
Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica. 
Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.
Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.
Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.
Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.
Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.
E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.


António Ramos Rosa, "Cada árvore..."

Ovelha debaixo de uma árvore perto de Dorset, Inglaterra.

Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
a árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses

A mim ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas Quando a gente as tem na mão E olha devagar para elas ...

   
Alberto Caeiro
(Num meio dia de Primavera..)

Aos meus Pais 

Cecília Meireles, "Búzios somos moendo a vida"


Buzios Men, Dominique Landau

Por que me falas nesse idioma?
perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.
Uma inteligência esparsa aprende
esse convite inadiável.
Búzios somos, moendo a vida
inteira essa música incessante.
Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que o seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir.

Only when he no longer knows what he is doing does the painter do good things.


Degas, pintor


Sophia de Mello Breyner, "Para atravessar contigo o deserto do mundo"






Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Livro Sexto (1962)

Mafalda Veiga, "Grito"



Frida Khalo
Meu Deus, se nos velas
Diz-nos o que é que nos separa
E porque é que o sol demora
Atrás da colina escura
Anda dar luz ao caminho
Que a gente assim desespera
É como sonhar sozinho
Como se o mar fosse raso
E o céu não tivesse altura

Sempre no silêncio
Dá gozo a voz deste chão
Mas ainda me dói a alma
Na dor do corpo e das mãos
Tenho medo deste frio
Que à noite sinto no peito
Como se andassem cavando
Como se andassem fechando
Buracos de solidão

A gente não sabe
O que há depois do horizonte
A gente é um vulto curvado
Com uma sombra defronte
A ouvir rumores na distância
A sentir dentro um segredo
Feito de sonhos calados
Feito de braços fechados
Num poço fundo de medo

Anda dar luz ao caminho
Que já nos dói a demora
É como sonhar sozinho
Um sonho que nunca vinga
Num grito que nunca chora

Lindo poema de Mafalda Veiga

Natália Correia, "Dedicação"



A ti, Mãe, primeira maravilha dada aos meus olhos,
eu dedico estes poemas.
Subida da tua carne, a minha luz pertence-te.
Toma a minha dor e a minha alegria e este desespero
que floresce à sombra do teu mistério.

Carla Furtado Ribeiro, "Fosses uma deserta praia"




Fosses uma deserta praia ou uma terra nua 


Ou um lago esquecido uma face da lua 

A menos iluminada a mais crua 

Ainda assim ainda assim ...


Fosses um fogo apagado uma noite fria 

Uma pedra disforme um abismo 

Uma lança uma espada ou uma arma disparada 

Ao vazio do céu à máscara da vida 

Ainda assim ainda assim ...


Te tomaria ao nevoeiro da noite à bruma do dia 

E num esgar do tempo ou num recanto 

Ainda que imperfeito de harmonia 

Eu te amaria eu te amaria eu te amaria...

Lançamos o barco, sonhamos a viagem: quem viaja é sempre o mar.


Mia Couto
Dito do meu avô Celestiano
in Mar Me Quer






Carla Furtado Ribeiro, "Aguarela"


João Brum, Aguarelas

AGUARELA

Queria ser uma aguarela
Esboçada sobre uma tela
Pintura de encantar



Queria ser filha do tempo
Divagar em pensamento
Com ele ir nele voltar



Queria ser visão fugaz
Que se esvai mas que se traz
No coração



Queria ser uma guitarra
Um fado uma tricana
Capa preta uma canção



E queria ser a saudade
Para chorar à vontade
Tons que trago em mim



Queria se a eternidade
O não - ser a imensidade
Desse olhar terno cetim



Mas, queria ser também a flor
O perfume redentor
De promessas ao luar



Rosa jasmim amor-perfeito
Ser a flor que nesse peito
Lembra amor a quem amar



- Ser o amor que neste peito
Lembra, flor, por quem esperar...




A. Botto, "Se fosses luz, serias a mais bela"


[Quadro de Rafal Olbinski 


Se fosses luz serias a mais bela 
De quantas há no mundo: — a luz do dia! 
— Bendito seja o teu sorriso 
Que desata a inspiração 
Da minha fantasia! 
Se fosses flor serias o perfume 
Concentrado e divino que perturba 
O sentir de quem nasce para amar! 
— Se desejo o teu corpo é porque tenho 
Dentro de mim 
A sede e a vibração de te beijar! 
Se fosses água, música da terra, 
Serias água pura e sempre calma! 
— Mas de tudo que possas ser na vida 
Só quero, meu amor, que sejas alma!



Excertos gloriosos

"Teresa, você é a coisa mais bonita que eu vi até hoje na minha vida, [inclusive o porquinho-da-índia que me deram quando eu tinha seis anos]"
Manuel Bandeira

Excertos dolorosos

"Mesmo para os descrentes há a pergunta duvidosa: e depois da morte? Mesmo para os descrentes há o instante de desespero: que Deus me ajude... Venha, Deus, venha. Mesmo que eu não mereça, venha. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que eu não sei usar amor: às vezes parecem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e continuo inquieta e infeliz, é porque preciso que Deus venha. Venha antes que seja tarde demais."
Clarice Lispector

Clarice Lispector, "Meu Deus, me dê a coragem"


Rafal Olbinsky
Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios da Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em Teus braços
o meu pecado de pensar.



E lança um olhar num livro que amas. Começa assim um dia belo e útil


Bertolt Brecht

Ninho de Pedra e um poema para minha mãe



[Para minha Mãe]


A ti que me diste tu vida,
tu amor y tu espacio.
A ti que cargaste en tu vientre dolor y cansacio. 
A ti que peleaste con uñas y dientes 
valiente en tu casa y en cualquier lugar
a ti rosa fresca de abril
a ti mi fiel querubín.
A ti te dedico mis versos, mi ser mis victorias
a ti mis respetos, Señora, Señora, Señora
A ti mi guerrera invencible,
a ti luchadora incansable
a ti mi amiga constante de todas las horas.
Su nombre es un nombre común
como las margaritas
siempre en mi boca presencia
constante en mi mente
Y para no hacer tanto alarde
Esa Mujer de quien hablo 
 
es linda mi amiga Gaviota, 
 
Su nombre es: MI MADRE

*
(Busca-se a autoria deste poema.)


Maria Bethânia canta "Luz da Cidade"




A luz da cidade cintila
O palco é a rua deserta
Aberta, tranqüila
A mesma voz a cantar
...
Estive em cada solidão
Em forma de canção
Espalhei-me no ar


Roberto Mendes, Jorge Portugal

Fernando Pessoa (Ricardo reis), "Segue o teu destino"



Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Eugénio de Andrade, "As mãos"




Que tristeza inútil essas mãos
que nem sempre são flores
que se dêem:
abertas são apenas abandono,
fechadas são pálpebras imensas
carregadas de sono.

Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade, "As Mãos e os Frutos"



Franck Owiak, The Gardener's Hands

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Carla Furtado Ribeiro, "Portugal"




PORTUGAL

Não suporto estes flautistas de Hamelin
que não ouvem a gritar a sua bandeira
aquela que é tão feita de verdade
a que jurou ser nossa a vida inteira

Mas mais odeio os profetas da desgraça
trovador sou de almas verdes a cantar
canto o hino de um povo que não vende
o orgulho que lhe sangra sem parar

Esse orgulho que lhe sangra sem parar
é seiva lusitana genuína
viriatos somos todos, todos temos
a profundeza d’alma a forma fina

É sempre em teu regaço que repouso
somente o teu céu me faz sonhar
mas se algum dia te perder, meu Portugal
é porque já não sou eu vem- me buscar

E és tu portugal meu bem-querer
aquele que eu canto sentidamente
e nas trovas de amor só tu o sabes
é a ti que me declaro sempre, sempre



Carla Furtado Ribeiro, "Homem prosaico"

Clairvoyance (Self-Portrait), 1936
HOMEM PROSAICO

O riso ternura dos teus lábios aceno
O perfume cristal do teu pescoço gazela
O cálice tempo que a tua força sustenta
Por sobre a mesa

A face branca do teu rosto luar
O vibrar filigrana do teu olhar crepúsculo
A gravata atadura que o teu colarinho prende
Sobre a camisa

O movimento distinto dos teus ossos alabastro
A cadência musical da tua respiração pássaro
Os botões de punho ouro com que distingues
A tua prosaica existência

O domesticado ondulante do teu cabelo mar
A ajeitada selva da tua barba amazónia
O aftershave subjecticida, auto-repelente com que abafas
A tua identidade

O sonho defraudado da tua juventude bandeira
A lágrima chuva dos teus olhos céu
O coração puído que te recorda a distância
De ti próprio

*

Feliz Páscoa





Não me movimenta, meu Deus, para querer-Te
O céu que me havias prometido;
Nem me movimenta o inferno tão temido,
Para deixar por isso de ofender-Te.

Tu me movimentas, Senhor!
Movimenta-me o ver-Te
Cravado em uma cruz e escarnecido!
Movimenta-me o ver Teu corpo tão ferido.
Movimenta-me Tuas afrontas e Tua morte.
Movimenta-me, enfim, Teu amor de tal maneira,

Que, ainda que não houvesse céu, eu Te amaria,
E, ainda que não houvesse inferno Te temeria.
Não tens que dar-me nada porque Te amo,
Porque, ainda enquanto espero não esperaria,
O mesmo que Te amo Te amaria.


(Anónimo, Séc. XVI)

Simplicidade




Poema de Matilde Rosa Araújo oferecido pela minha mãe, neste dia, ao acaso...




- Mãe! O mundo é mau,
Torna a flor num lodo
E o pássaro num verme,
E eu não sabia...

- Filha! Semeia flores no lodo,
Empresta o teu canto ao verme.
Se as tuas mãos continuarem puras
E meigo o teu coração,
Acredita que o mundo é belo. 

E saberás! 


"Vida" de Matilde Rosa Araújo

(Obrigada Mãe!)

Noite de estrelas e em cada estrela uma noite dançando ternamente a melodia do fim de todas as coisas


Carla Furtado Ribeiro




Descem sobre mim as colinas da noite, as pálpebras pesadas do dia sobrevivido. Faltam palavras para dizer a escuridão... o sonho ...chegou a hora do sonho...


Carla Furtado Ribeiro


Spirit of the Night (1879) by John Atkinson Grimshaw 

Carla Furtado Ribeiro, "Metamorfose"



METAMORFOSE

é na água dos teus olhos que me nascem
as palavras de gelo com que esculpo
a tua antevisão inexplorada 

se não fosse o silêncio percutido do nada 

um hiato atravessou-nos na esfera do tempo
como crisálida desfiando a madrugada
e nós cedemos à metamorfose inesperada

Carla Furtado Ribeiro, "Vozes do Mar"

Acompanho-te
À beira do mar
Onde o vento esmaga
Gotas de água contra a terra
Num temporal de fúria.

Que te deu para passeares
À beira deste mar enfurecido
Quando o céu chove
Como quem chora
Em desalmada tristeza…?

Deveras, a melancolia não é uma doença…
Mas, um remédio contra a lucidez…
Sim. Contra a sobreexistência de alguns vivos…

Segredo-te



Segredo ao teu ouvido 
O silêncio das manhãs enfeitiçadas por luz 
E tu segues o meu olhar como quem busca um Deus 
Eu não profetizo a beleza que te conto 
Vejo-a como quem acredita no vento, 
E na existência do amor 
Vejo-a como quem acredita no Tempo...
(Que tudo purifica...)
Segredo ao teu ouvido 
O silêncio dos nenúfares a vogar 
E sei que não entendes, 
Porque para ti as flores não têm alma 
Mas eu digo que nós somos a alma das coisas 
O términus de todos os significados 
Em nós desagua o simbolismo da vida 
Não há quem entenda 
Eu segredo ao teu ouvido 
Não porque entendas, 
Mas para que entendas 
Eu segredo-te 
As metáforas imprecisas 
Dos motivos e dos porquês 
E tu debruças-te como se 
Pela primeira vez 
Sobre o lago da existência. 
Mas a essencial pergunta não te ocorre: 
Não vês que é no vagar e no silêncio que se morre? 
Não vês que sou eu que não entendo? 
Não vês que eu sou uma pergunta irretratável? 
Não vês que eu não tenho respostas?
Por isso me nutro de beleza e de silêncio:
- As únicas coisas do mundo que não precisam explicação,
  espelhos que são a minha casa.

Carla Furtado Ribeiro, "Aldeia"


ALDEIA

A minha aldeia é uma história de silêncio
Solene, hierático, intenso
ora altivo, ora raro, ora denso
De que as coisas se pressentem povoadas

Um silêncio de brisas transpiradas
Pelos corpos de chão, de terra, de semente
E de tudo o que no Homem faz presente
O mistério das coisas, insondável

A aldeia é rua de memórias apeadas
Bordadas a vidrilhos de luar
um jardim de angemas perfumadas
De um perfume impossível de expressar

São memórias e visões revisitadas
Em cada pedra, em cada tronco, 
Em cada espiga de milho, 
Em cada olhar de desfolhada
Que nos fere de emoção, aldeia amada
Que nos deixa o coração a soluçar.


[poema musicado pela autora]

M.C. Valdágua, "Nas Asas do Vento"



Voltamos novamente à Arte de Maria da Conceição Valdágua.
Livre, límpida e um tanto absorta... tal como eu.

Carla Furtado Ribeiro, "Versos"


Picasso
VERSOS

rios de cristal 

anseiam por mar 
cores da minh’alma 
só a cantar 
versos distantes 
vivem tão perto 
pedaços de vida 
ou de um sonho 
entreaberto 
imagens perdidas 
abraços do tempo 
poemas refaço 
ao compasso do vento 
liturgias nocturnas 
canções de ninar 
pregões apregoados 
navios a filar 
porfiar e porvir 
ilusões de regaço 
muros deixo ruir 
e em palavras retraço 
sentimentos demais 
demais é tão profundo 
poema que entendes 
terreno fecundo 
de palavras me visto 
de poemas me invento 
melodia é contorno 
viola adorno 

sentir tão intenso 
sentir tão intenso 
sentir tão intenso 



Carla Furtado Ribeiro, "Simplicidade"





Eu quisera não querer nada
E que tudo fosse para mim
como o leito inundado de um rio 


onde tudo fosse tudo


e não houvesse o vazio 
de não saber por onde ser


(1998)

Carla Furtado Ribeiro, "Invocação"

The Kiss, Klimt

misterioso olhar
pleno de estrelas
infantilmente presas
às meninas dos teus olhos
e que num repente
me adormecem de silêncios
és tu que vens chamando
pelo meu nome
e és tu que chegas pleno
das ternuras
com que alimentas
a raíz dos meus afectos
e depois chamam-me doce
mas sou tua
eu sou apenas
o afluente
dos teus gestos

Carla Furtado Ribeiro, "Mar selvagem"





Nesta serra-infância colhi 

as pétalas ardentes do sonho 
que ontem, hoje e amanhã 
enchem a minha vida sempre em flor 

além aquele horizonte azul de tão longínquo 
persegue-me em todas as direcções 

longe ou perto, cá por dentro, sou feita deste azul 
e em cada passo incerto me persigo
em busca deste mar selvagem