Para Bernardo Sassetti

 

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Bernardo,


...sentiremos a perda irreparável do teu sorriso e da tua desmesurada simplicidade.
Nos lugares do meu silêncio, que também foram os teus por um acaso feliz da vida, ecoará sempre a memória da tua bondade na alegria de cada regresso...à Casa
da Portela.


Foi uma honra.


Descansa em Paz

Songwritter - Van Morrison

O Amor é…

Namorados-Carnaval-Veneza

Há quem diga que o amor e a paixão são substâncias do sentir distintas. Eu creio, porém, que amar é estar apaixonado, e só nessa medida se pode afirmar, com o grande poeta Camões, que "amor é fogo que arde sem se ver ". Além disso, o amor não se constrói. Antes, já nasce construído, impondo-se ao nosso íntimo de modo verdadeiramente inelutável, como uma bênção que desaba sobre nós sem nos perguntar se estamos disponíveis ou não para acolher o mistério que ela representa. E, como toda a benção, pode vir sem esperarmos, mas, chega sempre no momento certo.

Amar desapaixonadamente, na verdade, seria um contra-senso e, para uma vida verdadeiramente feliz, nem sequer recomendável. Não vale sequer a pergunta típica: "Será que é amor?" já que tal questionamento implica uma dúvida que o próprio amor não contempla - se o é apaixonadamente - já que amar é não duvidar. Amar é, antes, estar certo.

Ele mobiliza todo o ser e faz rejubilar toda a alma. É como um Sol que nos aquece por dentro, operando em nós uma espécie de cura espiritual. Diante dele todos nos tornamos místicos e, a vida, um acto de fé nesse insondável mistério que o trouxe até nós, como uma dádiva de que não nos achávamos sequer merecedores.

E de facto, ele vem sem mérito. Não é amado quem merece, mas, quem necessita da dádiva do amor e dos seus ensinamentos, sobre o nosso íntimo e a própria natureza humana. Por isso, a humildade e a gratidão estão sempre presentes naquele que ama apaixonadamente.

Este amor assim, dispõe-nos de bem com a vida e, principalmente, faz-nos sentir presentes na realidade, apurando o nosso sentimento de existir e de coexistir.

Se aos mais realistas pode reconciliar com o céu, aos mais espirituais reconclilia com a terra.

Se a uns devolve o sentido da alma e do abstracto, a outros devolve o sentido da realidade e do concreto. E é nessa medida, sem dúvida, que poderemos dizer que o amor nos completa. Não é o outro ser que nos completa, mas antes, o amor que por ele possamos sentir (...em bom rigor, nenhum ser nos preenche plenamente como se fora uma alma-gémea, pois acredito que a alma-gémea de cada ser-humano só pode ser unicamente Deus...). Mas, o amor - esse sim - é um sentir que, à medida que nos volatiliza, adensa o conhecimento do nosso verdadeiro eu e nos completa.

Mas, ele é também a certeza de sermos amados e, por isso, o verdadeiro e sublime amor, só pode ser recíproco: um amor de amar e de ser amado. Um amor assim que é, afinal, um trauma positivo ou bom, que, como todo o trauma, nos deixa uma marca para sempre. É eterno, não enquanto dura, mas, por essa marca fortemente impressa na alma de quem sente, depósito de um sentimento que se prolonga pela vida fora (e, quem sabe, mesmo para além da morte ) da mesma maneira que uma infãncia traumatizada acompanha a vida adulta. A grande diferença é que, num amor assim, dispensamos toda e qualquer psicanálise ou, melhor dizendo, é pelo amor que realizamos a psicanálise do trauma da paixão. Paixão, que o amor sela e protege de toda e qualquer investida mais racional que nos desperte da doce inconsciência de amar.

Feliz Dia, para quem ama!

Carla Furtado

*

Do meu sentir,

em 14.02.2012 às 21:43h.

Agustina e “A Recuperação da Culpa”

Agustina Bessa Luís

Agustina Bessa-Luís

A recuperação da culpa

A Cultura Europeia encontra-se, há pelo menos seis décadas, numa situação embaraçosa. Ao serem solucionados problemas da saúde e do trabalho; ao crescerem as hipóteses e as profecias do bem-estar, o espírito criador foi sofrendo na sua raiz uma lesão profunda. A solidão, tão cara ao homem de pensamento e necessária à sua originalidade, foi sendo condenada pelo apelo à aldeia global. As fronteiras, ao caírem, produziram um fenómeno de desorientação; os mass-media, ao servirem os grandes espaços geofísicos, contribuíram para uma desmobilização do génio.

Não é de estranhar que a Cultura se tornasse uma espécie de cruzada, sem objetivos exceto os de menos alcance e que competem aos programas locais, de divulgação mais excitante. Mas o pensamento ficou bloqueado, o cérebro humano não responde aos estímulos da paixão criadora. Os modelos heroicos foram surpreendidos por uma concorrência de robots, que desiludem os homens e deixam as sociedades perturbadas quanto aos seus direitos à imaginação própria. No entanto, é preciso enfrentar as condições oferecidas por uma nova era que se quer propensa à esperança genuína dos povos. Uma era de Cultura.

A Cultura é, em princípio, um sentimento de afeto pelo mundo que nos rodeia. Se o afeto das situações não for contemplado, a Cultura não passa do âmbito das instituições que a nomeiam e tentam proteger. Ao ampliar os seus horizontes físicos, o homem sente-se tentado a julgar-se preparado para o acontecimento da Cultura. Porém, conhecer mais nomes célebres e lugares estranhos não desperta o caráter primordial duma cultura, que é o ser livre de orgulho e dispensado da inteligência de grupo. Toda a diferenciação cria qualquer forma de fanatismo. A Cultura instalou-se sempre partindo duma diferenciação. É um direito, sem dúvida, mas em que medida um direito não é também uma culpa?

Para vivermos plenamente um direito, temos de nos mover dentro do afeto desse direito. Não na autoridade ou no espírito da lei que lhe assiste, mas no afeto do direito. E o afeto da culpa? Quando ele nos é negado, morremos no corpo e no espírito.

A um auditório de mulheres de cultura, faria sentido eu dirigir a seguinte pergunta: porque é que a culpa foi, através dos tempos, atribuída às mulheres? Ao atribuir-se à mulher um estado de culpa, não se estará a dignificar a culpa como motivadora duma civilização? É possível. Nesse caso, a mulher, como portadora duma culpa, é sempre iniciadora duma cultura. A culpa, nesse caso e aqui, não é um opróbrio, mas uma consequência da própria infalibilidade. Só da culpa a pessoa pode elevar-se. A cultura parte do pressuposto duma culpa. Só ela se interroga. Só ela desencadeia o conflito.

S. Boaventura, porque observa a ordem da justiça com particular atenção, considera o pecado original não só imputável à mulher, mas também ao varão por não a ter contido e reprimido. O homem teme, ao mover a mulher a seguir a razão, perder a sua parte de deleite sensual de que a sociedade fez um bem útil. É de prever que novas capacidades intelectuais e morais estejam em evolução no homem do futuro. A sua sensibilidade ganhará forma no sentido de o aproximar de uma linguagem mais universal do que tribal. A literatura e as artes serão cultivadas como uma religião de ascetas, provavelmente. A ascese é a escolha duma inovação. É uma prova da inovação.

Entretanto, um dos grandes impasses da Cultura reside nos conflitos entre o prazer que a sociedade adapta ao seu sistema, e a vinculação ao desprazer, ou seja, ao trabalho e a todas as propostas difíceis.

O mundo está constituído por etnias cujas contradições não são absorvidas tão rapidamente como se movem e se reproduzem. A Cultura, fenómeno de sedimentação de experiências, tornou-se num expediente, numa tática e num consentimento sem obra.

Todas as pessoas possuem um dom que protege há milhões de anos a sua vida na terra. É uma espécie de infalibilidade que previne o instinto de morte de se desenvolver e nos destruir. Não tem a ver com a opção, mas com um acordo comum entre todas as espécies. A vontade do homem apoia assim o interesse dos políticos que, como Ciro, fazem de cada lar um bordel, para deste modo governarem as metrópoles com menos despesa de guarnições.

A Europa enfrenta-se com o seu dom de infalibilidade. Decisão, partilha, amor e cultura têm de ser conduzidos pela mão da infalibilidade. Senão, tudo não passará de muito barulho para nada.

O afeto da cultura, mais do que o planeamento da Cultura, a infalibilidade, mais do que a certeza, serão auxiliares para nos podermos conhecer e libertar.

São estas as ideias para uma renovação da Cultura. São ideias que marcam o entendimento do tempo comum europeu, tanto atlântico como mediterrânico.

O tempo europeu, subsidiário da cultura helénica e romana, encontra hoje o vazio do pensamento que a serviu. As dicotomias bem e mal, justo e injusto, puro e impuro, sofrem grandes provações. A tendência é para recuperar do passado velhas fórmulas cuja sabedoria está confundida com preconceitos mutáveis.

Que nome daremos à atualidade da culpa, única forma de instaurar uma cultura? É com certeza nome de mulher. O nome do eterno feminino que o Dr. Fausto reconheceu não sem admiração. «A tua incerteza mata-me» - diz Fausto a Margarida. E ela está completamente nas últimas palavras que profere: «Causas-me horror!»

Freud deu o último abanão ao sentimento burguês de culpa. Depois disso a sociedade não parou de conferir ao prazer uma inteligência como forma de reprimir os ideais, mais perigosos do que o instinto do prazer.

É certo que a culpa pode submeter os homens a um simples treino da infelicidade. Hoje, o homem está capacitado de ser infeliz, apesar de as condições de vida serem melhores. Os seus padecimentos são demonstrados, são, por assim dizer, consumidos. Mas não correspondem a qualquer glória integrada no mistério humano.

Conheci uma mulher pobre e, além disso, atrasada mental. Ela passava os dias prestando serviços gratuitos numa pequena loja onde eu ia fazer as minhas compras do dia: o pão, o leite, a fruta. Ela vigiava-me para que eu não escolhesse a fruta e repreendia-me se eu o fazia. Até que, um dia, a dona da loja lhe fez ver que eu era uma pessoa importante e que não podia tratar-me dessa maneira. No fundo, eu achei que aquela mulher era idiota e que alguém devia pô-la na ordem.

Só que, alguns dias depois, a mulher apareceu morta em casa. Embora todos comentassem aquilo sem qualquer emoção duradoura, eu pensei que alguma coisa teria acontecido que lhe tivesse provocado a morte. Ela tinha sido atingida na sua infalibilidade. Há um ponto na razão que comandou a infalibilidade, o direito de julgar e de agir conforme o afeto da justiça. Eu tinha ferido de morte a infalibilidade dessa mulher. Ela viu-se como todos a viam: pobre e inútil, sobretudo, fora da inteligência da culpa. Eu e os outros não a culpávamos. Mas também não a amávamos.

A mulher-objeto, a mulher-demónio, não são senão interpretações da culpa. A mulher não representa maior perigosidade do que o homem, e isso tenta-se demonstrar ao situá-la numa escala inferior, ou numa situação submissa. Mas o que muito se demonstra sofre de falta de convicção.

A mulher conhece-se a si mesma; o homem não. Não é por acaso que o oráculo de Delfos, uma mulher, aconselhe o homem a conhecer-se a si mesmo, o que produziria o estado de culpa. A culpa que não se descreve por meio de qualquer linguagem, é unicamente uma via onde se cruzam a vida e a morte.

Texto inédito escrito entre 1990 e 1993, publicado no jornal “Público” a 15 de outubro de 2011, dia em que Agustina Bessa-Luís completou 89 anos.

Agustina Bessa-Luís

In Público

18.10.11

Miserere, Maria Callas e Di Stefano

Excerts from Jean Cocteau's La Belle et la Bête (1946) ·
Music: Giuseppe Verdi - Il Trovatore, chorus and duet "Miserere" ·
Maria Callas, Giuseppe di Stefano.

 

Cântico XIII, Cecília Meireles | Dimitri Cervo, Compositor Erudito Contemporâneo.

 

CÂNTICO XIII, CECÍLIA MEIRELES

Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.

 

 

Dimitri Cervo. “Quando componho procuro a Beleza através de seus três requisitos essenciais: integridade, simetria e radiância."

Jorge Luís Borges

 

 

Uma oração

Jorge Luis Borges

Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.

Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.

Jorge Luis Borges nasceu em 1899 na cidade de Buenos Aires, capital da Argentina e faleceu em Genebra, no ano de 1986. É considerado o maior poeta argentino de todos os tempos e é, sem dúvida, um dos mais importantes escritores da literatura mundial.
"Seu texto é sempre o de uma pessoa que, reconhecendo honestamente a fragilidade e as limitações do ser humano, nos coloca diante de reflexões nas quais, com freqüência, está presente o nosso próprio destino." (Miguel A. Paladino).

Tradições Familiares


Sim...porque nesta região, a tradição ainda é o que era... :)

[ Festas de Nossa Senhora das Neves, Concelho de Ansião ]
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A Vida deve Ser um Sonho que se Recusa a Confrontos

(Fernando Pessoa, in 'O Livro do Desassossego')

Tudo quanto de desagradável nos sucede na vida - figuras ridículas que fazemos, maus gestos que temos, lapsos em que caímos de qualquer das vir­tudes - deve ser considerado como meros acidentes externos, impotentes para atingir a substância da alma. Tenhamo-los como dores de dentes, ou calos, da vida, coisas que nos incomodam mas são externas ainda que nossas, ou que só têm que supor a nossa existência orgânica ou preocupar-se o que há de vital em nós.
Quando atingimos esta atitude, que é, em outro modo, a dos místicos, estamos defendidos não só do mundo mas de nós mesmos, pois vencemos o que em nós é externo, é outrem, é o contrário de nós e por isso o nosso inimigo.
Disse Horácio, falando do varão justo, que ficaria impávido ainda que em torno dele ruísse o mundo. A imagem é absurda, justo o seu sentido. Ainda que em torno de nós rua o que fingimos que somos, porque coexistimos, devemos ficar impávidos - não porque sejamos justos, mas porque somos nós, e sermos nós é nada ter que ver com essas coisas externas que ruem, ainda que ruam sobre o que para elas somos.
A vida deve ser, para os melhores, um sonho que se recusa a confrontos.

Troubadour, Lula Pena

Félix Bermudes e a melhor tradução de "IF" de Rudyard Kipling

Félix Bermudes foi quem traduziu o "IF" em meados do séc XX.

Ao português Félix Bermudes devemos esta tradução - de um cunho muito pessoal - do poema de Rudyard Kipling.

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Se...

 

“Se podes conservar o teu bom senso e a calma

Num mundo a delirar para quem o louco és tu...

Se podes crer em ti com toda a força de alma

Quando ninguém te crê...Se vais faminto e nu,

 

Trilhando sem revolta um rumo solitário...

Se à torva intolerância, à negra incompreensão,

Tu podes responder subindo o teu calvário

Com lágrimas de amor e bençãos de perdão...

Francis Cabrel

Palavra

VARIOS-MOTIVOS-PRA-LEMBRAR-DE-MIM mirtes miles

os teus olhos

reclamam a palavra “amor”

do amor que não te tenho

de tanto não amar

nem conhecer

não amo

não sou

não tenho

ainda… que

ternamente eu saiba

o que é dizer

essa palavra dolorosa

com que se escrevem estrelas.

essa palavra que de súbito

me poderia transformar

no que não sou

se estivesse

transformada

eu no que sou.

essa palavra nascida

do torpor das águas

e morta na calma

das enseadas.

essa palavra que eu

não sei dizer

dorme na escuridão

de te não saber…

quem és ?

para que me queiras

assim tão resumida

nesta

palavra….?

 

C.

Arlequim

 

 

ARLEQUIM

….

é assim que a vida é a semeadura
da noite, da espera, da colheita,
do inesperado que se aceita
o teu destino é sempre renascer…

e ao romper o novo dia
novo sonho com ele há-de chegar
como mãos camponesas a rasgar
as entranhas das terras ressequidas

Carla Furtado

 

  FELIZ ANO NOVO DE 2011

JUSTITIAE, Carla Furtado

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JUSTITIAE

 

De segredos te encerras, Deusa

De segredos te enovelas

De segredos te consomes

E acautelas…

 

De segredos te ocultas,

Pousando na cidadela

A sombra, apenas,

De mais densa luz

Que não desvelas…

 

De segredos te encerras, Deusa

Nocturna e sedutora,

Esfíngica e bela…

Sapiente sentinela,

Que na Tríade da Pólis

Se constela.

 

De segredos te encerras, Deusa...

De coração pétrido,

E enigmática,  austera,  selas

Com ordem, sublevação.

(Mas, eis que sepultas, então,

A lágrima que ocultas,

No aluir do teu íntimo perdão…)

 

Justiça! Justiça!

Quantos desenganos são....

Buscamos teus arcanos, mas em vão…

Pensamo-nos divinos, de humana condição…

Se, ao menos, em nosso palpitar profano,

Infundisses, da justiça divina, a humana cognição!…

Justiça! Justiça!

O teu perdão…

Pois Tu é que és Divina!

E nós…não...

 

Carla FURTADO, Inédito, 2010-10-16

ANTIGA DOR, Teixeira de Pascoaes

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O subtil, o reflexo, o vago, o indefinido,
Tudo o que o nosso olhar só vê por um momento
Tudo o que fica na Distância diluído,
Como num coração a voz do sentimento.
Tudo o que vive no lugar onde termina
Um amor, uma luz, uma canção, um grito,
A última onda duma fonte cristalina,
A última nebulosa etérea do Infinito...
Esse país aonde tudo principia
A ser névoa, a ser sombra ou vaga claridade,
Onde a noite se muda em clara luz do dia,
Onde o amor começa a ser saudade;
O longínquo lugar aonde o que é real
Principia a ser sonho, esperança, ilusão;
O lugar onde nasce a aurora do Ideal
E aonde a luz começa a ser escuridão...
A última fronteira, o último horizonte,
Onde a Essência aparece e a Forma terminou...
O sítio onde se muda a natureza inteira
Nessa infinita Luz que a mim me deslumbrou!...
O indefinido, a sombra, a nuvem, o apagado,
O limite da luz, o termo dum amor,
Tornou o meu olhar saudoso e magoado,
Na minha vida foi minha primeira dor...
Mas hoje, que o segredo oculto da Existência,
Num momento de luz, o soube desvendar,
Depois que pude ver das cousas a essência
E a sua eterna luz chegou ao meu olhar,
Meu infinito amor é a Alma universal,
Essa nuvem primeira, essa sombra d'outrora...
O Bem que tenho hoje é o meu antigo Mal,
A minha antiga noite é hoje a minha aurora!...


(de Sempre, 1898/1902)

…“A hora da partida soa quando escurece o jardim e o vento passa, estala o chão e as portas batem, quando a noite cada nó em si deslaça”… (Sophia M. Breyner)

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Nada é impossível de mudar, Bertold Brecht

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Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.

A Verdade é Amor, Virgílio Ferreira

 

A verdade é amor — escrevi um dia. Porque toda a relação com o mundo se funda na sensibilidade, como se aprendeu na infância e não mais se pôde esquecer. É esse equilíbrio interno que diz ao pintor que tal azul ou vermelho estão certos na composição de um quadro. É o mesmo equilíbrio indizível que ao filósofo impõe a verdade para a sua filosofia. Porque a filosofia é um excesso da arte. Ela acrescenta em razões ou explicações o que lhe impôs esse equilíbrio, resolvido noutros num poema, num quadro ou noutra forma de se ser artista. Assim o que exprime o nosso equilíbrio interior, gerado no impensável ou impensado de nós, é um sentimento estético, um modo de sermos em sensibilidade, antes de o sermos em. razão ou mesmo em inteligência. Porque só se entende o que se entende connosco, ou seja, como no amor, quando se está «feito um para o outro». Só entra em harmonia connosco o que o nosso equilíbrio consente. E só o consente, se o amar.

Vergílio Ferreira, in "Pensar"

Florbela Espanca, A voz da tília

tilia-ora-patricia-van-lubeck( Painting: Tília, Patrícia Lubeck )

Diz-me a tília a cantar: “Eu sou sincera,
Eu sou isto que vês: o sonho, a graça;
Deu ao meu corpo, o vento, quando passa,
Este ar escultural de bayadera…

E de manhã o sol é uma cratera,
Uma serpente de oiro que me enlaça…
Trago nas mãos as mãos da Primavera…
E é para mim que em noites de desgraça

Toca o vento Mozart, triste e solene,
E à minha alma vibrante, posta a nu,
Diz a chuva sonetos de Verlaine…”

E, ao ver-me triste, a tília murmurou;
“Já fui um dia poeta como tu…
Ainda hás-de ser tília como eu sou…”

Florbela Espanca, Tortura

 

silencio

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento!
– E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento! ...


Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
– E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento ...


São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!


Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

Florbela Espanca

Florbela Espanca, Versos

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Versos de orgulho

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.

Porque o meu Reino fica para além ...
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus!
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!

O mundo? O que é o mundo, ó meu Amor?
O jardim dos meus versos todo em flor ...
A seara dos teus beijos, pão bendito ...


Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços ...
São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito.

Florbela Espanca

(1894-1930)

Fernando Pessoa, Tabacaria

anjo amigo

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

 

Álvaro de Campos, 15-1-1928

“…ao longe por mim oiço chamando a voz das coisas que eu sei amar. E de novo caminho para o mar.”, Sophia M. Breyner

8689mar

Cidade, Sophia de M. Breyner

Night-City 


(Night-City by Stephen F. Soitos)


Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.






Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética I
Caminho

Sophia de M. Breyner

 1566

Van Gogh, “Starry Night”

***

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa

Foi Um Momento, Fernando Pessoa

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Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não?
Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido,
Mas tão de leve!...
Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há uma coisa
Incompreendida...
Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?
Como se tu,
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses
Que tinha ser.
Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.

A LUVA DE RICARDO

flor

Meu avô era poeta
Que enquanto escrevia, despia
A alma de desventuras…
Ao coldre tinha uma arma
Mas não tinha armadura…
Por vezes sonhava sonhos
De gente simples, feliz…
Mas por dura cerviz
Foi proibido.
E em póstuma Revolução
(E derradeira!)
Fez -se morrer rente ao chão
Em rasa simplicidade!
Meu avô… meu avô…
Era um poeta…
Que enquanto escrevia, despia
A alma de desventuras…
…E a herança de sua neta
Foi esta dor de poeta
Foi esta amarga doçura
E ainda a ausência que trago
Da sua ignota ternura.


De "Poemas para Ricardo"
(Imitação da Vida)

A Alma é Exterior

A alma, ao contrário do que tu supões, a alma é exterior: envolve e impregna o corpo como um fluido envolve a matéria. Em certos homens a alma chega a ser visível, a atmosfera que os rodeia tomar cor. Há seres cuja alma é uma contínua exalação: arrastam-na como um cometa ao oiro esparralhado da cauda - imensa, dorida, frenética. Há-os cuja alma é de uma sensibilidade extrema: sentem em si todo o universo. Daí também simpatias e antipatias súbitas quando duas almas se tocam, mesmo antes da matéria comunicar. O amor não é senão a impregnação desses fluidos, formando uma só alma, como o ódio é a repulsão dessa névoa sensível. Assim é que o homem faz parte da estrela e a estrela de Deus.
Raul Brandão, in "Húmus"

Sirena Huang, pequena grande violinista

A violinista faz uma performance emocional e tecnicamente brilhante. Num interlúdio encantador, e com apenas 11 anos, elogia o design atemporal de seu instrumento.

Ballet, Polina Semionova!

CROSSROADS, Don Mclean

I`ve got nothing on my mind: nothing to remember,
Nothing to forget. and I`ve got nothing to regret,
But I`m all tied up on the inside,
No one knows quite what I`ve got; 
And I know that on the outside
What I used to be, I`m not anymore.


You know I`ve heard about people like me,
But I never made the connection.

They walk one road to set them free
And find they`ve gone the wrong direction.


But there`s no need for turning back
cause all roads lead to where I stand.
And I believe I`ll walk them all
No matter what I may have planned.

Can you remember who I was? can you still feel it?
Can you find my pain? can you heal it?
Then lay your hands upon me now
And cast this darkness from my soul.
You alone can light my way.
You alone can make me whole once again.


We`ve walked both sides of every street
Through all kinds of windy weather.
But that was never our defeat
As long as we could walk together.

So there`s no need for turning back
cause all roads lead to where we stand.
And I believe we`ll walk them all
No matter what we may have planned.

“Voy a contarle una historia…

… y me contó la historia de un muchacho enamorado de una estrella. Adoraba a su estrella junto al mar, tendía sus brazos hacia ella, soñaba con ella y le dirigía todos sus pensamientos. Pero sabía, o creía saber, que una estrella no puede ser abrazada por un ser humano. Creía que su destino era amar a una estrella sin esperanza; y sobre esta idea construyó todo un poema vital de renuncia y de sufrimiento silencioso y fiel que habría de purificarle y perfeccionarle.”

(Herman Hesse)

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A vida, esse livro do ser lê-se em silêncio.

A vida, esse livro do ser

Lê-se em silêncio.

Mestre, oficia o rito

Que eu apenas respondo ao salmo,

E no resto

Nem respiro.

*

O silêncio é uma arma de três gumes

Que usamos diariamente

Para calar amarguras

Ou saltando como pumas:

Cala-te! Porque não te calas?

*

A vida, esse livro do ser

Lê-se em silêncio.

*

E a outros, se falam, um punhal

Corta sem hesitar a garganta:

Ou silêncio ou morte!

Não o sabias? Então de que te espantas?

*

Nada incomoda mais que as ciciantes

Preces, as dos que querem ser lidos

Como revistas de moda,

As dos que sabem tudo, tudo censuram,

A todos desautorizam, em altos gritos de arara.

*

Cala-te! Porque não te calas, charlatão?

*

Silêncio, que estou a cantar o fado…

Muito barulho fazeis por coisa de nada

E nada em boa justiça se aplica

Aos que bem mereciam a cadeia.

*

Nem é a autoridade dos que governam impérios

Com a pressão das armas e do dinheiro

A que mais nos ofende com censura

Sim o seu miniatural espelho

De quem nenhuma obra ousou,

Além de poluir o silêncio com mentira.

À luz da nossa vida pessoal, quem mais nos cala

É quem está mais próximo

Mas esse, porque proclama sem cadeira,

Feitos nem actos,

Por excessiva frioleira, mandemo-lo calar

Pois pouco existe, é só fala-barato.

*

Abençoados os que se calam

A ouvir.

É preciso sabedoria para reconhecer

Que ignoramos

E que outros no seu dizer

Revelam alguma mestria.

*

Falem-me em silêncio, na língua da erva

Ou na mais cantarolante dos regatos

E das aves que fazem estrugir as folhas secas

Quando as fêmeas se enamoram

Ao ver as danças dos machos.

*

A vida, esse livro tremendo,

Representa-se devagar,

Em cenário nocturno

Cortado pelo brilho da lua e pelo

Visionar da coruja.

Mais nada é preciso para tocar o astro

Excepto silêncio e cordura.

***

(Maria Estela Guedes)

Sem Beleza, não há Salvação

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A pessoa deve desenvolver-se no seu ser físico - também é preciso cuidar da saúde, por exemplo -, no seu ser intelectual - é preciso esforçar-se por entender a realidade, entender-se a si mesmo e a sociedade -, no seu ser emocional - cada vez estamos mais despertos para a importância das emoções positivas e negativas na existência humana -, no seu ser social - os outros também existem e sem tu não há eu -, no seu ser artístico - sem beleza, não há salvação -, no seu ser moral - é preciso aprender a distinguir entre bem e mal e a saber julgar do bem e do mal - no seu ser espiritual - não é o Homem, constitutivamente, o ser do transcendimento sem fim, até ao Infinito?

                                                                                                Borges, Anselmo

SÉNECA: Tempo Desperdiçado por Negligência

 corra-tempo
       

Procede deste modo, caro Lucílio: reclama o direito de dispores de ti, concentra e aproveita todo o tempo que até agora te era roubado, te era subtraído, que te fugira das mãos. Convence-te de que as coisas são tal como as descrevo: uma parte do tempo é-nos tomada, outra parte vai-se sem darmos por isso, outra deixamo-la escapar. Mas o pior de tudo é o tempo desperdiçado por negligência. Se bem reparares, durante grande parte da vida agimos mal, durante a maior parte não agimos nada, durante toda a vida agimos inutilmente.

Podes indicar-me alguém que dê o justo valor ao tempo aproveite bem o seu dia e pense que diariamente morre um pouco? É um erro imaginar que a morte está à nossa frente: grande parte dela já pertence ao passado, toda a nossa vida pretérita é já do domínio da morte!
Procede, portanto, caro Lucílio, conforme dizes: preenche todas as tuas horas! Se tomares nas mãos o dia de hoje conseguirás depender menos do dia de amanhã. De adiamento em adiamento, a vida vai-se passando.

Séneca, in 'Cartas a Lucílio'

Alfonsina Y El Mar (Mercedes Sosa)

Por la blanda arena
Que lame el mar
Su pequeña huella
No vuelve más
Un sendero solo
De pena y silencio llegó
Hasta el agua profunda
Un sendero solo
De penas mudas llegó
Hasta la espuma.

Sabe Dios qué angustia
Te acompañó
Qué dolores viejos
Calló tu voz
Para recostarte
Arrullada en el canto
De las caracolas marinas
La canción que canta
En el fondo oscuro del mar
La caracola.

Te vas Alfonsina
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fuíste a buscar?
Una voz antigüa
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.

Cinco sirenitas
Te llevarán
Por caminos de algas
Y de coral
Y fosforescentes
Caballos marinos harán
Una ronda a tu lado
Y los habitantes
Del agua van a jugar
Pronto a tu lado.

Bájame la lámpara
Un poco más
Déjame que duerma
Nodriza, en paz
Y si llama él
No le digas que estoy
Dile que Alfonsina no vuelve
Y si llama él
No le digas nunca que estoy
Di que me he ido.

Te vas Alfonsina
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fueste a buscar?
Una voz antigua
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.

Composição: Ariel Ramirez / Felix Luna

Quando a última ÁRVORE…

I wanna know is anybody out there
who's gonna help me fight the
dangers in the air.
I wanna know who is out there
who's gonna help me fight the
dangers in the air.
When the last tree has been taken,
the last river has been poisoned
caught the last fish from the ocean
eat your money then.
Wenn der letzte Baum gerodet
der letzte Fluß vergiftet
der letzte Fisch gefangen,
werdet Ihr verstehen,
daß man Geld nicht essen kann.
When the last tree...
Eat your money then!
Before the last tree has been taken
our rivers have been poisoned
Take our mother earth in our hands
I believe we can
Bevor der letzte Baum gerodet,
der letzte Fluß vergiftet,
meine Mutter Erde ich bin für dich da
Give it a chance, ooh...
I believe we can, ooh...

Jesu, Joy of Man’s Desiring – J. S. Bach, by Celtic Woman

 

Jesu, joy of man's desiring
Holy wisdom, love most bright
Drawn by Thee, our souls aspiring
Soar to uncreated light
Word of God, our flesh that fashioned
With the fire of life impassioned
Striving still to truth unknown
Soaring, dying round Thy throne

Silêncio

Silencio
cuando llamando a la suerte, no comparece en ese momento
en silencio, solo
recogiendo platos rotos, va mi compare de puerto en puerto
en silencio, solo en silencio
barquito velero, barquito velero!!!

Mentira, todo es mentira
los sueños y las ilusiones sin timón hacia la deriva
susurran callaítas, mares, cielos y ríos
tierras lejanas, madres y niñas
testigos de un tiempo, de tanto odio y tanta injusticia.

Miraba las estrellas una noche de verano
Buscando la ternura, que tuvo y no volverá.
Juguete de papel desvanecía en sus manos
Inocencia que tuvo y no volverá.

Quien entiende
lo que es la vida y la muerte
los momentos aparentes que nos tocan de vivir
Quien entiende
las apariencias engañan al más noble
amor y odio se confunden
tormenta y agua que va, que va y al mar
¡¡¡quien entiende!!!

Sabéndolo tó de tó,
recoger la noche clara que la ternura fraguó
No busques la noche oscura por oscuro callejón
no la esperes, llega sola...

Miraba las estrellas y no veía ná.....
Más que puntitos luminosos en un mundo nublao....
Reflejo de galaxias en un cielo gris....
Espera los colores que están por venir....

Miraba las estrellas una noche de verano
Buscando la ternura, que tuvo y no volverá.
Juguete de papel desvanecía en sus manos
Inocencia que tuvo y no volverá.



Ojos de Brujo Lyrics

Andrea Bocelli Canto della terra

Guarda questa terra che
Che gira insieme a noi
Anche quando e buio
Guarda questa terra che
Che gira anche per noi
A darci un po' di
Sole, sole, sole
Sole, sole, sole
Guarda questa terra che
Che gira insieme a noi
A darci un po' di sole
Mighty sun
Mighty sun
Mighty sun

CASSIOPEIA – MÚSICA, INSTRUMENTAL E VOZ DE CARLA FURTADO. POESIA DE PROF. DR. ORLANDO DE CARVALHO

 

Quando os cutelos de sombra

abordarem a planície

se te vierem dizer que eu te disse

que aquela flor lanceolada não resiste

como uma estrela fechada

como uma noiva deitada

à espera da madrugada mais verdadeira que existe

se te vierem dizer não olhes a cassiopeia

mas deita-te meu amor

na ponta de cada veia

e encosta o rosto na terra

que a lua fria incendeia

silva encostada ao silêncio

ouvindo a sombra do vento

sobre a areia

sobre a areia

sobre a areia…

Dostoiévski – Um dos Grande Escritores da Minha Vida

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Uma análise de Dostoyevsky a partir de “Os Irmãos Karamazov”:

“"Os Irmãos Karamázov" é o último livro de Fiódor Dostoiévski, sendo considerado por muitos críticos e leitores a melhor dentre todas as suas obras. Publicado em 1880, sendo finalizado apenas pouco antes de sua morte, Dostoievski apresenta uma invenção tão grandiosa que a crítica não consegue defini-la até hoje. Os Irmãos Karamázov engloba de tudo: religião, psicologia, filosofia, moralidade, além da culpa, expiação e relacionamentos vividos por cada personagem... Ou seja tudo aquilo que está inerente ao comportamento humano.”

O mundo estilhaçado e a morte libertadora
LUIZ FELIPE PONDÉ
"SE DEUS não existe e a alma é mortal, tudo é permitido" é um enunciado profundamente racional. Não se trata do lamento de uma mente frágil. Os Karamazov são especialistas na pureza da razão teórica e prática. Movimentam-se em direcção aos exageros da "função razão": o objetivo é fundamentar o mundo pela sua decomposição e posterior reconstrução conceitual abstrata. Só que eles não encontram esse fundamento. Ao contrário, percebem a realidade despedaçada do mundo. O "tudo é permitido" emerge dos estilhaços do mundo.
A razão de Ivan Karamazov (muito próxima da que o ceticismo e a sofística conhecem) percebe a vacuidade de qualquer imperativo ético universal: o mundo é estilhaçado pela liberdade que a morte nos garante. Sem Deus, perde-se a forma absoluta do juízo moral: estamos sós no universo como animais ferozes que babam enquanto vagam pelo deserto e contemplam a solidão dos elementos. A morte, que devolverá a humanidade ao pó, é o fundamento último do nosso direito cósmico ao gozo do mal.
Esse ciclo nos liberta da única forma verdadeira de responsabilidade, a infinita. A moral é mera convenção e não está escrita na poeira das estrelas. O filósofo Karamazov descreve o impasse ético por excelência: por trás do blablablá socioconstrutivista do respeito ao "outro", o niilismo ri da razão. Na crítica à teoria utilitarista do meio (social) em "Crime e Castigo", Dostoiévski já apontara o caráter "científico" da revolução niilista fundamentada nas ciências sociais: se tudo é construído, toda desconstrução é racionalmente permitida. Além de desconstruir, sabemos construir? O homem pode ser a forma do homem?
A modernidade achou que sim. Kant pensou que, com seu risível imperativo categórico, nos salvaria, fundando a racionalidade pura da moral. Conseguiu apenas a exclusão cotidiana de toda forma de homem possível. A miserável ética utilitarista (a ética do mundo possível), síntese da alma prática que só calcula, busca na universal obsessão humana pelo prazer a fundamentação de uma ética para homens, cuja forma universal são os merceeiros ingleses (Marx). O humanismo rousseauniano apostou na educação para a felicidade e virou auto-ajuda.
Contra a fé em Kant e na economia, Dostoiévski descreve nos "Demônios" a trindade que funda o projeto do homem pelo homem: o jovem melancólico sem subjetividade (Nicolai, o existencialista elegante), o pai e professor preguiçoso e "sensível" (Stiépan, o amante das modas revolucionárias em educação, poesia e ciência) e o filho niilista cínico (Piotr, o patrono dos jacobinos, dos marxistas e dos cientistas da economia prática, esses burocratas da violência).
Entender esse enredo como desespero de uma alma religiosa é senso comum banal. A banalização é um dos modos corriqueiros de a modernidade lidar com o que não conhece (e ela conhece muito pouco de tudo, mas é tagarela e ama o superficial, como diria Tocqueville). A falácia comum é a suposição de que o intelecto teológico necessariamente teme o sofrimento. O único medo em Dostoiévski é aquele mesmo de Cervantes: "O medo tem muitos olhos e vê coisas no subsolo". O erro de Nietzsche quando reduz a religião ao ressentimento se transformou em "papo cabeça".
O argumento dos Karamazov é um diagnóstico, não uma oração pela salvação do homem: o sentimento real de que deslizamos aceleradamente sobre fina casca de gelo mortal é prova sublime do seu caráter profético. A história aqui nos basta. Dostoiévski anuncia a comédia trágica daqueles que deixaram de acreditar em Deus e, por isso mesmo, passaram a acreditar em qualquer reforma barata.
Contrariamente ao que pensava a risível crítica moderna da religião, o contato com Deus fortalece o intelecto nas mais íntimas estruturas lógicas e práticas de sua natureza.
LUIZ FELIPE PONDÉ, filósofo.

Poema ao acaso